Editoriais
Quinta-feira, 14 de Janeiro de 2010, 01h:26
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Mulher brasileira
Em Mato Grosso sua presença é constante nos lares com crianças na periferia de Cuiabá e Várzea Grande, nas pequenas cidades e vilas que enfrentam problemas sociais com o fim do garimpo manual, em aldeias indígenas, em acampamentos de sem terra e por onde mais ronda a fome e a subnutrição. Presente em tantos lugares assim em Mato Grosso o estado que mais se identifica com a produção de alimentos no Brasil, é possível imaginar sua quase onipresença nas regiões de miséria extrema iguais ao sertão nordestino, Polígono da Seca em Minas, favelas das grandes capitais e outros bolsões onde a tragédia social se abate no Brasil. Figura humana singular, talhada pela mão de Deus para servir ao próximo, ela soube levar adiante essa missão ao longo dos 75 anos sobre a face da Terra. Em sua trajetória de luz associou os conhecimentos acadêmicos da medicina ao sacerdócio feminino voluntário em defesa da vida, contra a fome, a subnutrição e o nanismo. Cientista do povo extraiu da teoria e da prática materna - ao criar cinco filhos biológicos - conhecimento para fundar um organismo de mobilização nacional calcado no voluntariado em defesa da infância e, assim, em 1983, nasceu a Pastoral a Criança com as bênçãos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e para criar um suplemento alimentar composto por farelos de arroz e trigo, folha de mandioca, sementes de abóbora e gergelim, e casca de ovo, para exorcizar o fantasma da subnutrição que ronda bebês e crianças pobres. Quantas vidas foram salvas pela farinha tão simples quanto seu público consumidor, ninguém sabe. Esse desconhecimento não tem importância, porque a meta não era (nem é) quantificar quantos sobrevivem, mas sim, dar vida aos brasileiros que nascem integrantes da parcela populacional vítima do grande fosso social parido pela corrupção, pelo peleguismo e a impunidade. A Pastoral da Criança é sua face mais conhecida, mas a grandeza de sua obra humanitária é bem maior e sua quantificação não caberia no espaço deste editorial. Uma figura assim transcende a insondável linha que separa a vida da morte, porque seus feitos não conhecem as barreiras do hoje, do ontem e do amanhã: são perenes, avançam infinitamente pelo tempo carregados pela memória coletiva das gerações que se sucedem. A obra por ela idealizada prosseguirá na força do ideal de seus seguidores mantendo amparados milhões de filhos da pobreza. O momento é de dor e perplexidade. Um terremoto no Haiti atingiu em cheio uma fortaleza humanitária no coração do Brasil. Dona Zilda Arns tombou sob os escombros de um país arrasado por uma catástrofe, mas deixou ao seu povo um projeto social pela vida que nenhuma incompetência governamental inviabilizará nem o maior tremor de terra destruirá. A Pastoral da Terra continuará enquanto perdurar a nebulosidade social que mata mais brasileiros do que todos os terremotos que ocorrem no mundo. Descanse em paz doutora Zilda Arns! Um terremoto no Haiti atingiu em cheio uma fortaleza