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Editoriais
Quinta-feira, 07 de Agosto de 2008, 21h:18

Intolerância com a corrupção

Uma ampla pesquisa sobre o fenômeno da corrupção no país aponta dois aspectos que são significativos e, de certa maneira, conflitam entre si. O primeiro é que uma percentagem expressiva 77% dos entrevistados considera que a corrupção é um problema muito grave, desfazendo a impressão de que o brasileiro seja tolerante com corruptos ou corruptores. O outro é o que revela de maneira insinuada e sutil que a população é tolerante com alguns tipos de prática corrupta largamente disseminados na sociedade. O policial que se vende por dinheiro comete um crime que a sociedade considera execrável, mas o crime do contribuinte que sonega ou tenta subornar o funcionário público é, de certa maneira, justificado e tolerado. Se um empresário financia campanha por interesse de receber privilégios do eleito, é visto como um corruptor. Mas furar o sinal de trânsito ou burlar a fila de algum serviço público ou privado são episódios sobre os quais não incidem condenações severas. A pesquisa, realizada pelo instituto Vox Populi para o Centro de Referência do Interesse Público da Universidade Federal de Minas Gerais, tem a pretensão de ser a mais ampla análise da corrupção brasileira. Como essa questão tem tido uma presença constante na mídia e na política nacionais dos últimos três anos, é compreensível o alto percentual de pessoas que têm opinião definida em relação à participação positiva ou negativa do Congresso, do Judiciário ou da Polícia Federal em fatos relacionados com a corrupção, sua investigação ou seu ajuizamento. A profusão dos fatos denunciados não eliminou uma certa consciência crítica dos cidadãos que, por 75% dos consultados, consideram que a visibilidade dos casos de corrupção neste momento se deve tanto ao aumento recente desse crime quanto à maior apuração de casos antigos, submersos. Um fato que novamente se confirma é o desprestígio das instituições políticas, vistas como cenários em que a corrupção se estabelece e grassa. O surpreendente nesse aspecto é o surgimento das câmaras de vereadores como locais de corrupção, mais do que as casas do Congresso Nacional ou as prefeituras, por exemplo. Na análise da pesquisa, o professor Fábio Wanderley Reis considera que a generalização dos casos de corrupção no país leva a algo que é novo e assustador. Apenas 3% dos brasileiros respondem positivamente à pergunta sobre se se pode, em geral, confiar nas pessoas. Nas nações escandinavas, a proporção é de 65%. O Brasil se transforma assim no reino da desconfiança. Essa situação deve ser debitada às trapaças do cotidiano, às leis de faz-de-conta e à generalização do jeitinho. Se quase ninguém é confiável, torna-se compreensível que a apatia política se transforme em regra e que as instituições sejam desvalorizadas. A questão merece a reflexão da sociedade, especialmente agora, no começo de um novo episódio de renovação das autoridades municipais. Sempre que se deflagra uma campanha eleitoral, renasce de alguma maneira a esperança de que a sabedoria popular optará pelos nomes certos. “A sabedoria popular optará pelos nomes certos”

Edição EDIÇÃO 16967




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