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Editoriais
Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2012, 19h:33

Identidade nacional

Solenidade militar não tem espaço para sentimento. No mundo inteiro o ato se resume em si. No Brasil, nem mesmo a rígida disciplina hierarquizada da caserna consegue impedir a manifestação de foro íntimo do soldado. Ontem, a televisão mostrou o lado humano brasileiro com militares da Marinha se derretendo em lágrimas no embarque dos corpos do suboficial e do sargento daquela Força que morreram quando combatiam um incêndio na Base Científica Comandante Ferraz, do Brasil, na Antártida. A manifestação aconteceu na base chilena de Punta Arenas. O sentimento manifestado pelos colegas dos dois militares da Marinha é o espelho da alma brasileira, que é sempre sensível em casos de morte, tragédia, doença, acidente e problemas de diversas naturezas. Há sempre um ombro amigo para confortar o parente, vizinho, amigo, conhecido e até mesmo figuras estranhas. Esta manifestação, no entanto, não se repete no campo da indignação quando o Brasil é vítima dos crimes de colarinho branco que tantos prejuízos causam ao erário público e que são praticados em todos os cantos do território nacional. Ao invés de reagir com indignação diante da corrupção promovida por corruptos e corruptores, o brasileiro opta ora pela indiferença ora por satirizar ou ironizar a situação. Pior ainda, em muitas situações o corrupto desperta o sentimento de compaixão do cidadão. Sem prejuízo do sentimento que revela o humanismo do perfil cidadão do povo deste país, o brasileiro tem que aprender a se indignar, a exigir justiça e severa punição aos que dilapidam o patrimônio público, que desviam recursos da educação, saúde, segurança e dos demais setores. A comovente cena protagonizada no Chile pelo contingente da Marinha brasileira levantou sentimento de brasilidade do Oiapoque ao Chuí e uma onda de nacionalismo varreu o Brasil. Também foi assim quando da morte do presidente Tancredo Neves e do acidente que vitimou o piloto de Fórmula 1 Ayrton Senna, na Itália. O sentimento brasileiro também aflora quando a seleção de futebol entra em campo, ainda que para amistoso insosso; quando nosso vôlei encanta o mundo; quando um grupo de cantores formado por meninos pobres se apresenta no exterior; e em tantas outras situações. Este povo que se emociona com tanta naturalidade é o mesmo que baixa a cabeça, engole em seco e não é capaz de se organizar em manifestação contra a corrupção, contra o peleguismo, contra a violência desenfreada, contra a falta de saúde pública, contra a precariedade da educação, contra a falta de saneamento, contra... É preciso manter o arraigado sentimento humanista brasileiro tanto quanto é necessário aprender a se indignar, a protestar, porque nação se faz com lágrimas e sorrisos, com cantos e gritos. O Brasil não pode permanecer nação com dualidade e tem que encontrar sua verdadeira identidade, una, altiva, independente, cristalina e bem diferente daquela descrita por De Gaulle. Nação se faz com lágrimas e sorrisos, com cantos e gritos

Edição EDIÇÃO 16962




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