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Editoriais
Sábado, 24 de Março de 2012, 14h:27

Do Coliseu ao MMA

Construído em Roma no limiar da Era Cristã, o Coliseu foi arena de horrores onde gladiadores duelavam e adversários do Império Romano e cristão eram imolados para deleite da Corte em combates com leões e outras feras famintas. Em tese, a humanidade evoluiu muito e, hoje, tem foro de civilidade se comparada aos indivíduos que há quase dois mil anos a compunham, quando da entrada em funcionamento do Coliseu. À época dos espetáculos macabros naquela arena - com capacidade para 50 mil plebeus, além da área reservada ao imperador e seus comensais – não havia aspecto esportivo nas suas provas. O que se disputava era o direito à vida. A selvageria dos combates entre gladiadores em lutas - individuais, em duplas, trios, quartetos ou equipes - tinham sempre trágicos desfechos. Ou os oponentes morriam em razão dos ferimentos sofridos a espada e outras armas, ou somente um falecia, ou o derrotado caído aos pés do vitorioso aguardava em agonia pela sentença ditada pelas arquibancadas. Se a maioria levantasse o polegar direito, sua execução seria comutada em respeito à bravura com que lutou; em caso contrário receberia golpe de misericórdia. A condenação à morte ou a preservação do lutador definida pelos presentes era lei e somente não poderia se contrapor ao que decidisse o imperador – quando comparecia à luta -, que tinha poder para manter ou mudar a opinião do povo usando para tanto o mesmo gesto com o indicador. Em nome da evolução da espécie humana o Brasil avançou na preservação dos direitos do cidadão e em defesa dos animais a ponto de proibir a caça, de suspender pesca temporariamente, de criminalizar as rinhas de galo, lutas de cães e os maus-tratos aos animais de tração. Também pela evolução o Brasil é signatário de tratados em defesa da criança, do idoso, da proibição de trabalho análogo ao escravo. Por este mesmo princípio aboliu-se a pena capital e o indivíduo não pode permanecer preso por mais de 30 anos. Este Brasil que se mostra avançado na defesa da vida e da integridade física é a mesma nação que se deixa varrer pelos ventos da violência de uma luta dita esportiva que garante grande faturamento ao empresariado que a promove e aos seus principais ídolos. Esta luta é conhecida pela sigla MMA (que em inglês significa mixed martial arts cuja tradução livre é mistura de artes marciais). Onipresente no Brasil o MMA é capa de jornais e revistas, invade o horário nobre da televisão e ocupa espaço na novela. Academias matriculam cada vez maior quantidade de jovens de todas as classes sociais para a prática do MMA. Lutadores mutilados não recebem a mesma cobertura da mídia quanto a luta em si. Enquanto isso, os praticantes continuam promovendo a violência, que deixa a plateia excitada e que merece estudo sociológico para se saber a que ponto os golpes fulminantes podem interferir na conduta dos jovens que assistem a essas competições. Ancorada em grandes interesses financeiros e da televisão, o MMA é reedição do Coliseu. Ancorada em grandes interesses financeiros e da televisão, o MMA é reedição do Coliseu

Edição EDIÇÃO 16962




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