Um dos episódios mais significativos da Operação Lava-Jato, afora a proposta de devolução de US$ 100 milhões por um dos investigados, é a afirmação do advogado do lobista Fernando Baiano de que no Brasil não se faz obra pública sem acerto. Por acerto entenda-se o pagamento de propina. Os brasileiros precisam refletir sobre esta manifestação e decidir se ela é totalmente verdadeira, parcialmente verdadeira, se foi feita apenas para justificar as irregularidades praticadas pelo cliente do doutor Mario Oliveira Filho ou se todas as hipóteses são cabíveis. Independentemente das respostas para esta enquete imaginária, o certo é que o país precisa estender a sua indignação com a rapinagem na maior estatal brasileira para os pequenos delitos que corrompem as bases da sociedade e que acabam sendo incorporados na normalidade. Se a cultura da corrupção está impregnada na administração pública e nas relações do Estado com seus fornecedores, não basta prender os corruptos e corruptores que estão destruindo a Petrobras. É urgente reavaliar as estruturas e o funcionamento da máquina pública em todos os poderes e em todas as instâncias, desde os critérios de escolha de dirigentes para estatais até a operacionalidade dos órgãos e mecanismos fiscalizadores, para que se tornem mais eficientes e cumpram suas atribuições. O mesmo cidadão que expressa perplexidade diante de um escândalo como o da Petrobras nem sempre se revolta com o fiscal que exige um presentinho para liberar uma licença ou um habite- se, ou com o funcionário que cria dificuldades para vender facilidades. Pois esta cultura de corrupção tem que ser combatida em todas as frentes, com a punição rigorosa dos grandes fraudadores, mas também com a rejeição inequívoca e a denúncia da imoralidade corriqueira. É doloroso ouvir do advogado de uma empreiteira que não se faz obra pública no Brasil sem composição ilícita com um político e que isso já faz parte da história do país. Existe, sim, um esquema perverso de preservação do poder por meio de alianças políticas espúrias, loteamento de ministérios e estatais, corrupção institucionalizada nas relações entre o Estado e seus fornecedores. Mas os protagonistas deste conluio não podem fazer-se de vítimas. Nem o cidadão que compactua com as pequenas falcatruas sob o pretexto de que não há outro jeito. Há, sim. Tem que haver. Não basta prender os corruptos e corruptores. É urgente reavaliar as estruturas e o funcionamento da máquina pública