Editoriais
Segunda-feira, 24 de Novembro de 2008, 20h:49
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A crise e a humanidade
Os governos, surpreendidos pela crise financeira global, despejaram recursos bilionários para impedir que a falência de bancos e outras empresas arrastasse toda a economia a um colapso. Surgiram assim, quase num passe de mágica, US$ 700 bilhões dos cofres norte-americanos, outros tantos dos governos da China, da Grã-Bretanha, da Alemanha, do Japão e até de países como o nosso, que se desdobrou para injetar recursos no mercado e impedir o contágio da crise imobiliária. Agora, em meio a essa avalanche de recursos que, somados, chegam a trilhões de dólares, a ONU está fazendo um pedido singelo: quer que os países façam a doação de US$ 7 bilhões para impedir que 30 milhões de moradores da África e do Oriente Médio, vítimas de conflitos ou de tragédias naturais, sucumbam à fome ou à falta de condições sanitárias e habitacionais mínimas. A soma de recursos pedida pelas autoridades das Nações Unidas é maior do que a dos anos anteriores, mas é constrangedoramente ínfima se comparada com os montantes que, com mão aberta, foram mobilizados para salvar instituições que perderam na roleta das finanças ou na falta de visão ou de competência de seus dirigentes. A questão não propõe apenas um alerta. Propõe acima de tudo um desafio. Com um décimo dos recursos usados na salvação dos bancos, o planeta poderia promover um salto na qualidade de vida de bilhões de seres humanos, que hoje vivem em níveis miseráveis, que não têm acesso à educação, que sobrevivem em casebres infectos, que viverão e morrerão sem assistência médica e que transmitirão essas condições a seus filhos e netos. Ao fazer o pedido aos países ricos, a ONU não esconde uma preocupação: a crise financeira global servirá de argumento e de desculpa para que esses países se esquivem dos deveres de solidariedade que sua condição impõe. A questão não pode ficar restrita apenas à necessidade de ajuda humanitária aos milhares de congoleses que a guerra civil expulsou de suas casas ou aos milhões de sudaneses, quenianos, somalis, ugandenses ou de outros povos africanos que as condições climáticas e conflitos étnicos transformaram em multidões empobrecidas, famintas, doentes e sem teto. Essa ajuda humanitária é uma questão marcada pela emergência. A parte rica do planeta, até como condição de implantação da paz ou como abertura de novos mercados, tem o dever de se preocupar com um projeto de longo prazo em que a ajuda internacional será a alavanca para o resgate definitivo de regiões e de populações que de outra maneira permanecerão condenadas ao atraso e à penúria. Já se dizia, há décadas, que uma simples redução dos orçamentos militares das potências mundiais seria suficiente para financiar esse tipo de revolução. Pois agora, os escandalosos recursos amealhados para salvar bancos e empresas ameaçados de quebra são uma comprovação de que, se os homens e os governos pudessem ser minimamente solidários, as carências sociais também poderiam ser globalmente amenizadas. A questão não pode ficar restrita apenas à questão da ajuda humanitária