ECONOMIA
Quinta-feira, 24 de Julho de 2008, 21h:11
A
A
SELIC
Vendas a prazo sob risco
Consumidores endividados terão de pensar duas vezes antes de
fazer nova compra a prazo. Veículos será o setor mais afetado
MARCONDES MACIEL
Da Reportagem
A elevação das taxas de juros Selic em 0,75 ponto percentual, levando para 13% ao ano, deverá inibir as vendas a prazo no comércio. Representantes de entidades empresariais acreditam que a medida tem por objetivo conter o consumo para brecar o processo inflacionário. O governo federal tem alguns instrumentos para controlar a inflação e um deles é esse (aumento das taxas de juro), que deverá repercutir diretamente no consumo dos bens comprados via crediário, afirma o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Cuiabá (CDL), José Alberto Aguiar. Ele acredita que a medida terá reflexos também nos empréstimos e cartões de crédito. Para o presidente do Sindicato dos Concessionários e Distribuidores de Veículos de Mato Grosso (Sincodiv), Paulo César Bôscolo, a elevação das taxas Selic afetará com maior intensidade os setores que trabalham com financiamentos a longo prazo, como o segmento de veículos. Bôscolo já havia alertado na semana passada, em entrevista ao Diário, para a possibilidade de uma nova alta dos juros. Na verdade o governo federal já tinha feito este aceno, por isso ficamos atentos. A expectativa do aumento dos juros, segundo ele, acelerou a venda de carros novos nas concessionárias de Mato Grosso. Só no primeiro semestre do ano foram vendidas 19 mil unidades e a previsão é chegar ao final do ano com 40 mil carros vendidos. As concessionárias aguardam o posicionamento dos bancos e financeiras para saber como ficarão os juros nos financiamentos de veículos a partir de agora. Na primeira quinzena de julho as melhores taxas do mercado ficaram entre 1,25% e 1,31%. A média, entretanto, ficou em 1,40%. Na opinião do coordenador da Câmara Tributária da Federação do Comércio do Estado (Fecomércio), Paulo Gasparotto, a alta da taxa Selic é para conter o crescimento do país mediante a desaceleração do consumo. O juro sempre foi um inibidor das vendas a prazo, pois incide diretamente no valor das prestações. Gasparotto afirmou que os bancos já estão aplicando taxas novas nos financiamentos, dificultando a obtenção de empréstimos e a circulação de maior volume de dinheiro no mercado. A medida é para segurar a inflação mesmo, através de uma contenção do consumo. Gasparotto diz que os consumidores já endividados terão que pensar duas vezes antes de fazer uma nova compra a prazo. O presidente do Sindicato do Comércio de Tecidos, Confecções e Armarinhos de Cuiabá e Várzea Grande, Roberto Peron, não acredita que a repercussão da alta será imediata para o consumidor, pois o setor varejista deverá absorver parte dos custos do juro. Ele acha que a repercussão maior será em outros setores, principalmente para aqueles que dependem de empréstimos e financiamentos bancários. Pode gerar até mesmo especulação. Com a medida, segundo Peron, as empresas acabam ficando com sua margem de rentabilidade achatada. Não deixa de ser preocupante, principalmente quando se tenta controlar a inflação por esse meio [contenção do consumo]. Na minha opinião, há outras formas de se controlar a inflação, como conter os gastos públicos e diminuir a carga tributária sobre as empresas. Segundo ele, o controle da inflação está baseado na retenção de dinheiro no mercado, mediante uma política de juros altos que acaba inibindo o consumo e atropelando os investimentos.