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Cuiabá MT, Segunda-feira, 22 de Junho de 2026

ECONOMIA
Sábado, 05 de Dezembro de 2009, 00h:18

CARNE BOVINA

Desmitificando a cadeia

Estudo inédito elaborado pelo Imea revela que 73% do valor da carne é formado da porteira para fora em MT

MARIANNA PERES
Da Editoria
Para cada R$ 100 gastos na aquisição de cortes bovinos no varejo, R$ 27 equivalem diretamente ao preço da produção da carne. Esse intervalo de reais é preenchido por um termo econômico chamado de margem de comercialização, que embute os custos fixos e variáveis e os lucros de cada elo da cadeia da bovinocultura. Isso significa dizer que 73% da formação dos preços é composto da porteira para fora, ou seja, sem qualquer interferência da ponta primária deste elo produtivo que é o pecuarista. Dos 73% de margem de comercialização dos cortes encontrados nas gôndolas dos supermercados ou nos balcões dos açougues, 5% são margem de comercialização dos atacadistas (indústrias frigoríficas) e 64% dos varejistas (supermercados, açougues e feiras). Os números mostram que o ano de 2009 será marcado como aquele em que a margem de comercialização atingiu o pico histórico da atividade, em Mato Grosso. Os dados fazem parte de um estudo inédito apresentado ontem, em Cuiabá, que teve como objetivo desmitificar “algumas lendas” da cadeia pecuária de corte, por meio da análise do comportamento do preço da carne bovina no Estado da ponta produtiva à comercial, verificando qual setor obtém a maior fatia do preço pago pelo consumidor. “O pecuarista não produz carne, produz boi e insistentemente é taxado como o vilão, o responsável pela alta da carne. O criador não forma preços, apesar de o pecuarista estar sujeito a maior gama de riscos. Seu ganho não é proporcionalmente igual”, frisa o diretor da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Júlio Ferraz. O estudo foi solicitado pela Acrimat ao Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), órgão vinculado à Federação da Agricultura e Pecuária do Estado (Famato). A análise do mercado de 2005 a 2009 revela que a média de margem de comercialização ao produtor foi de 30%, de 5% ao atacadista e de 64% ao varejista. Já na comparação anual (2008/2009), a margem de comercialização ao produtor passou de 32% para 27%, a do atacadista de 4% para 6% e a varejista de 63% para 67%. “Essa é uma cadeia em que a formação dos preços é feita de trás para frente, onde o varejo diz quanto quer pagar”, frisa o superintende do Imea, Seneri Paludo. A analista de Inteligência do Imea, Flávia Masotti, explica que o varejo dita as ordens por estar próximo ao consumo e saber exatamente o quanto o consumidor está disposto a pagar pela carne. “Apesar de o consumidor sustentar este desequilíbrio da cadeia produtiva da carne, ao pagar aquilo que se pede, ele, assim como o pecuarista, os dois extremos da cadeia, é o mais prejudicado”. Flávia reforça o entendimento do estudo ao dizer que margem de comercialização não é margem de lucro, já que este último é um dos itens de formação do primeiro. “Em suma, além dos lucros de cada elo, cada um contabiliza o tamanho do seu risco e do seu custo. O pecuarista, as intempéries; o atacadista, a logística; e o varejo, o acondicionamento de sua carga perecível”. Ferraz diz ainda que enquanto o varejo gira a mercadoria (carne) – vende e paga a carga – o pecuarista leva cerca de 30 meses para produzir um boi ao ponto do abate. “Quando há elevação da arroba, ela remunera a atividade, porém a rentabilidade não é suficiente para investimentos em pastagens e genética, por exemplo. Se a crise mundial reduziu as vendas da carne mundo afora e achatou a cotação da arroba, em outubro do ano passado, quando se constatou que a crise não seria tão severa no país, o varejo disparou sua margem de comercialização e não a recuou até agora. Esse abismo de distorções entre a ponta e o fim da cadeia não é bom pra ninguém”.

Edição EDIÇÃO 16967




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