ECONOMIA
Sábado, 08 de Março de 2008, 14h:11
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COMBUSTÍVEIS
Alta pode levar a Petrobras a reajustar os preços
NICOLA PAMPLONA
Da Agência Estado Rio
A cotação do petróleo caminha a passos largos para os US$ 110 por barril e, segundo analistas, está cada vez mais difícil justificar os preços da gasolina e do diesel no Brasil, sem reajuste desde setembro de 2005. Esta semana, o óleo leve negociado em Nova York superou, pela primeira vez, o recorde de 1980, ao ultrapassar durante o pregão os US$ 103,76 de abril daquele ano, em valores corrigidos pela inflação. Há duas semanas, a cotação média está acima dos US$ 100 por barril. Em relatório divulgado esta semana, a corretora Ativa calcula que a Petrobras corre o risco de operar com margens negativas na área de abastecimento caso não repasse a disparada do petróleo para o preço dos combustíveis. No quarto trimestre de 2007, por exemplo, esse segmento de negócios experimentou queda de 78% no lucro, na comparação com o terceiro trimestre, por causa da defasagem entre os preços dos combustíveis e a cotação do petróleo, que fechou dezembro com preço médio mensal de US$ 91,73 por barril. Agora, com petróleo acima dos US$ 100, especialistas calculam que a defasagem esteja entre 15% e 20%. "A forte queda no desempenho da área de abastecimento sinalizou a possibilidade de que no primeiro trimestre de 2008, mantendo-se a trajetória de alta no preço do petróleo e dos derivados no mercado internacional, poderemos observar margem negativa nesta área", diz em relatório a Ativa, explicando que o petróleo comprado pelas refinarias da empresa acompanha as cotações internacionais, mesmo que a vendedora seja a própria Petrobras. PADRÃO A analista Mônica Araújo diz que, mantendo o padrão usado nos últimos reajustes, a Petrobras deveria promover um aumento de 8% nos preços da gasolina e do diesel. Segundo ela, a companhia costuma observar o aumento médio do petróleo nos últimos quatro meses para calcular os porcentuais de reajuste. Mônica admite, porém, que "a questão é bastante delicada e não terá uma decisão utilizando unicamente ferramentas técnicas". A pressão de investidores é crescente. Na semana passada, o banco UBS divulgou relatório reclamando que o lucro da empresa, que caiu 17% em 2007, poderia ter sido maior caso houvesse reajustes. Mesmo assim, o alto escalão da companhia já se manifestou contrário a mudanças no curto prazo, repetindo o discurso de que não vai repassar ao consumidor brasileiro as volatilidades do mercado internacional. O diretor-financeiro da empresa, Almir Barbassa, chegou a admitir trabalhar com margens negativas por algum tempo. O problema é que o mercado não vê alívio nas cotações do petróleo no curto prazo. O petróleo tornou-se opção para investidores do mercado financeiro, abalado pela crise das hipotecas americanas e pela desvalorização do dólar. Segundo o consultor Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura (CBIE), o volume de contratos de petróleo negociados em bolsa é hoje 15 vezes superior ao consumo mundial, na casa dos 86 milhões de barris por dia. PREÇO JUSTO Pelos seus cálculos, o preço justo - considerando a relação entre oferta e demanda - estaria hoje em torno dos US$ 80 por barril. "O resto é especulação", afirma, prevendo que, mantido o ritmo de desvalorização do dólar, o petróleo pode chegar a US$ 150 o barril. "A Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) não vai aumentar a produção, já que está perdendo receita com a desvalorização do dólar." Ou seja, os preços só cairão se houver ajuste pelo lado da demanda, com retração da economia americana, responsável por 30% do consumo mundial. Quem investe em petróleo, porém, parece não vislumbrar essa possibilidade. Em Nova York, o petróleo para dezembro de 2008 fechou a semana cotado a US$ 100 o barril. Mesmo assim, Pires não acredita em aumento agora. "O governo não quer perder popularidade", argumenta. Há outros fatores em jogo. Segundo cálculos da Ativa, um reajuste de 8% no preço da gasolina e do diesel significaria impacto de 0,27 ponto porcentual na inflação oficial (IPCA), já pressionada com a alta das commodities agrícolas. A direção da Petrobrás argumenta que as cotações internacionais podem cair nos próximos meses, quando o estrago de um reajuste interno já estiver feito.