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CIDADES
Sábado, 09 de Junho de 2007, 14h:28

ESPECIAL VII

Você também tem muito a contribuir

Mudar hábitos de consumo arraigados não significa necessariamente abdicar da qualidade de vida

RODRIGO VARGAS
Da Reportagem
Para se produzir 100 milhões de sacolas plásticas – do tipo que trazemos aos montes do supermercado – são empregados quase 2 milhões de litros de petróleo. O número é do departamento de meio ambiente da cidade americana de São Francisco, a primeira nos EUA a proibir a distribuição dessas embalagens em estabelecimentos comerciais. O exemplo prosaico das embalagens serve para revelar o papel da população no esforço pela queda na emissão dos gases poluentes à atmosfera. Em qualquer faixa de renda, nossos padrões de consumo estão a desconsiderar fatores como eficiência, sustentabilidade e mesmo a necessidade. A boa notícia é que, para mudar estes hábitos, não é preciso necessariamente abdicar da qualidade de vida. Na maior parte dos casos, será exatamente o contrário, com vantagens nos campos econômico, físico, afetivo e social. Essa transformação pode começar agora mesmo, com pequenas ações. “Enfrentar o problema das mudanças climáticas implica em uma mudança de atitude brutal. Mas pode começar com medidas simples, como economizar água, por exemplo”, avalia o físico e professor aposentado da UFMT Nicolau Priante. Ele sabe do que está falando. Por conta própria, no quintal de sua casa, Priante tornou realidade algumas boas idéias para reduzir o desperdício de recursos naturais. Um dos mais conhecidos é o sistema que permite reaproveitar a água utilizada na lavagem de roupas para a descarga do vaso sanitário. “Eu costumo brincar que o que fiz em meu banheiro me deu mais notoriedade do que todos os estudos e cálculos que realizei. Mas é uma questão que me parece óbvia: não podemos utilizar água tratada para tal finalidade”, explica. Outra de suas invenções é um secador de frutas que, com o objetivo inicial de aproveitar alimentos antes descartados, acabou resultando na Coorimbatá, uma iniciativa comunitária que gera emprego e renda para famílias ribeirinhas da região de Bonsucesso e Pai André. VÍCIOS – Para Priante, a sociedade está estruturada a partir de um modelo que, ao mesmo tempo em que esgota a capacidade do planeta, ainda acentua as desigualdades de renda e oportunidades. E que, em nome da manutenção de um nível acelerado de produção e consumo, estimula necessidades e gera vícios. “Muitas pessoas utilizam o condicionador de ar continuamente, mesmo em dias frios, porque se acostumaram ao barulho. Isso não é conforto. É dependência. É preciso que o cidadão médio esteja aberto a avaliar o quanto estes hábitos estão interferindo em sua vida e na vida do planeta”. No campo dos transportes, continua o pesquisador, há muito potencial para mudança. Segundo ele, o modelo atual é absurdo em termos energéticos. E não há espaço nas ruas para que cada pessoa tenha o seu carro. “Com menos carros à disposição, teremos de aprender a compartilhar os meios de transporte de forma mais eficiente possível, até mesmo em conjunto com nossos vizinhos. Temos de reaprender a conversar, a pensar no outro, a ser menos egoístas, ou o governo terá de fazer isso, como já ocorre em São Paulo, por exemplo”. Ex-coordenador em Mato Grosso do Experimento em Larga Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA) – um conjunto de experimentos que reúne mais de mil pesquisadores do Brasil e outros sete países, em centenas de linhas de pesquisa –, Priante acredita que a ciência tenha muito a contribuir. “Se não for possível sensibilizar a maioria das pessoas, não haverá solução possível. Mas não podemos mais ficar apenas mostrando o que está errado, apontando culpados. Temos que buscar e oferecer alternativas”.

Edição EDIÇÃO 16962




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