NA HORA
O jornal de Mato Grosso Facebook Facebook twitter youtube

Cuiabá MT, Sábado, 13 de Junho de 2026

CIDADES
Sábado, 18 de Junho de 2011, 13h:56

RENASCIMENTO

Vítima de abandono no lixo conta drama

Aos 29 anos, Maria é casada e leva uma vida normal. Porém, sua trajetória é marcada pela superação de ter sido deixada no matagal pela mãe

ALECY ALVES
Da Reportagem
Não é fácil imaginar como uma pessoa reagiria ao descobrir que, horas depois do nascimento, foi abandonada pela mãe biológica em um matagal, no meio do lixo. Saber que a mulher que lhe trouxe à vida e de quem se espera amor incondicional, na verdade, descartou-a. O Diário traz nesta edição, em forma de depoimento, a história da cuiabana Maria, uma servidora pública de 29 anos, provavelmente um dos primeiros casos de abandono de recém-nascido deixado no lixo noticiado nos meios de comunicação de Cuiabá, fato ocorrido em junho de 1982. Maria é um nome fictício, criado com a autorização da entrevistada, que não se sente preparada para expor publicamente seu drama. ABANDONO “Meu pai adotivo, que morreu nos meus braços (respira fundo) quando eu tinha 9 anos, me encontrou num matagal perto do Pronto-Socorro de Cuiabá. Quase 30 anos atrás, ali não tinha tantos prédios. Ele era vigilante, trabalhava em uma empresa perto do local e retornava do trabalho pela manhã quando ouviu um choro vindo do mato e decidiu verificar. PAIS ADOTIVOS Acho que naquela época o serviço de adoção de bebês não era tão organizado, não havia cadastramento de casais, talvez por isso quem achou acabou me criando como filha legítima. Mas, primeiro, antes de ficar definitivamente comigo, ele e a esposa, que já tinham cinco filhos, entre os quais uma menina também adotada (uma vizinha que havia ficado órfã) me entregaram para uma irmã dele. Poucos dias depois, não aprovando os cuidados que eu vinha recebendo, me levaram de volta para casa e lá cresci. FAMÍLIA Tive uma relação conflitante com meus irmãos adotivos (novamente emocionada), talvez por causa dos ciúmes deles. Dos meus pais, porém, recebia muito amor. Minha mãe é uma pessoa maravilhosa, está sempre me dando força. É minha base, meu porto-seguro, por quem tenho verdadeira adoração (expressão de alegria e um tímido sorriso). Hoje, mantenho uma relação saudável com ela, mas em minha adolescência não era assim, apesar do grande amor que já compartilhávamos. ORIGEM Aos 12 anos, de tanto ouvir meus irmãos dizendo, longe da minha mãe, que eu era adotiva, que tinha que trabalhar em casa, fazer as coisas pra eles, decidi sair a procura de uma tia, irmã da minha mãe biológica, que fiquei sabendo que trabalhava em um hospital de Cuiabá. Essa informação (do abandono) veio de alguém, que não me lembro quem, da família dos meus pais adotivos. Como não tinha nem o nome dela correto, acabei não a encontrando. DESCOBERTA Voltei para casa chateada e decidida a buscar informações sobre minha história. Questionei minha mãe e ela contou. Tive um período de revolta. Na adolescência, por alguns anos, virei uma desobediente, não ouvia minha mãe, não aceitava conselhos e vivia por aí. Casei pela primeira vez aos 17 anos, ficamos juntos cinco anos. Estou casada novamente, há 8 anos vivendo bem com meu marido. CONFORTO Sem muitos detalhes, minha mãe confirmou a adoção e a maneira como me adotaram dizendo que eu estava no matagal, que a notícia até saiu em um jornal da época. Também disse que o importante era que eu estava bem, que me amava e estaria sempre comigo. APROXIMAÇÃO Contou ainda, e me recordo bem dessa parte da conversa, que quando eu tinha de quatro pra cinco anos, a minha mãe biológica apareceu lá em casa e se aproximou de mim pela grade do portão. Segundo ela, eu chorava e gritava com medo, sem ao menos saber de quem se tratava. Não sei e não vou atrás de saber como ela me descobriu ali, mas sei, pela minha mãe, que saiu prometendo não voltar nunca mais. CONTATO Só que quase vinte e cinco anos depois, em fevereiro deste ano, atendi um telefonema de minha irmã pedindo que eu fosse com urgência até a casa da minha mãe porque havia alguém querendo me ver. Fui acompanha do meu marido, um grande companheiro que conhece minha história. Entrei em pânico ao saber que a mulher que estava lá era minha mãe biológica. Ela se aproximou de mim, começou a passar as mãos nos meus cabelos (nova pausa para controlar as emoções) e fazer carinho em minhas costas. E eu, de costas para ela, chorava e tremia desesperadamente. Não consegui falar nada e pelos três dias seguintes continuei chorando. REENCONTRO Por alguns instantes meu marido conversou com ela. Fez perguntas e ela respondeu com uma dicção complicada, de difícil compreensão. Acho que ela tem algum problema de fala. Onde você mora? Com quem vive? Trabalha onde? Ela disse e eu entendi mais ou menos que mora no bairro Pedra 90 com uma família e vive de uma aposentadoria mínima. Disse também que meu pai biológico, que quando nasci não vivia com ela, mora por aqui, acho que em Várzea Grande. Mais uma vez ela foi embora prometendo não voltar nunca mais dizendo que não gostaria de me ver chorando assim novamente. Sinceramente, acho melhor continuar assim, não quero saber o que aconteceu com ela ou porque me abandonou. Fiquei sabendo que ela teve outros filhos, que também foram abandonos em casas de famílias. ‘TOCANDO’ A VIDA Tenho outra mãe, estou bem, não sou rica, trabalho, batalho como tantos outros brasileiros e faço planos de formar minha própria família, com filhos biológicos ou adotivos. De uma coisa tenho certeza: jamais abandonarei meu filho, a não ser que eu esteja doente, louca, por exemplo, e não saiba o que esteja fazendo. Não é fácil aceitar o abandono. Por muitas vezes, ainda hoje, fico pensando por que isso aconteceu comigo. O que fiz em outras vidas para pagar tão caro nesta, com uma história de sofrimento. Aí vem meus amigos mais próximos, que conhecem minha origem, para me reconfortar dizendo que eu devia agradecer a Deus por ter sido encontrada, ser saudável e ter a oportunidade de viver. Assim, com momentos de profunda tristeza e outros de alegria, vou levando vida”.

Edição EDIÇÃO 16962




ENQUETE
Você acredita que a Ferrovia Vicente Vuolo vai chegar a Cuiabá?
Sim. Seria uma questão de tempo. E de interesse.
Não. A Rumo já sinalizou que não é uma prioridade
Tanto faz. Em MT, os políticos não ligam para a obra
PARCIAL