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CIDADES
Quarta-feira, 20 de Maio de 2009, 20h:58

DEPORTADAS

Viagem e travessia repletas de perigos

Jovem de MT conta ao Diário detalhes do caminho frustrado rumo ao “sonho americano”: do translado num caminhão com 200 pessoas à prisão

KEITY ROMA
Da Reportagem
A frustrada e perigosa travessia para os Estados Unidos pela fronteira com o México não tirou da jovem Marinalda Campos Vilela, 19 anos, o chamado “sonho americano”. Recém chegada a Cuiabá, ela revela como funciona a organizada rede de travessia ilegal e relembra os momentos de tensão que viveu durante a viagem com cerca de 200 imigrantes. A peregrinação que começou no dia 22 de março em Pontes e Lacerda terminou em uma penitenciária de Laredo, no Texas. Na região de Pontes e Lacerda é comum casos de mato-grossenses de origem humilde que foram para os Estados Unidos e lá conquistaram a estabilidade financeira que possivelmente não teriam no Brasil. Foi uma dessas histórias que inspirou Marinalda e a amiga Angélica Alves. Com um contato na Flórida, Estados Unidos, que as abrigaria, só faltava uma maneira de entrar no país sem o visto, concedido pelo Consulado Americano somente a pessoas com determinado perfil. Foi então que os amigos lhe deram o telefone de Manoel (nome fictício), um “coiote” (quem realiza a travessia ilegal) de Minas Gerais. “O valor da viagem seria de 23 mil dólares, que eu pagaria quando começasse a trabalhar nos Estados Unidos, em uma lanchonete ou com limpeza”, relata Marinalda. Sem conhecer a pessoa com quem fechou negócio por telefone, Marinalda passou a receber instruções e dinheiro do negociador, que custeou até a emissão do passaporte dela e da amiga. No dia 22 de março as duas embarcaram em um ônibus para São Paulo. Após dois dias na estrada se encontraram com “funcionários” de Manoel na capital paulista. As meninas foram levadas para um hotel e em seguida para o aeroporto. Seguiram para Belo Horizonte de avião, de lá viajaram para o Panamá. Um dia depois foram para Honduras. “Em Honduras tinham mais uns 14 brasileiros. Os coiotes nos buscaram e levaram para um hotel bem simples, de onde a gente não podia sair sem autorização deles. Ficamos lá uns quatro dias, dormindo divididos em três quartos”, conta. No dia de deixar o país, dois carros buscaram o grupo. Sem conseguir atravessar para a Guatemala, Marinalda, Angélica e uma brasileira tiveram de voltar para o hotel. Após mais três dias trancadas, elas foram levadas de madrugada para uma fazenda, caminharam por uma hora, e entraram no país vizinho guiadas por uma criança de 11 anos. “Chegamos a uma casinha na fazenda, onde ficamos até clarear o dia. Depois seguimos escondidos em um ônibus escolar para a rodoviária da Guatemala”. Lá, o trio encontrou o outro grupo de brasileiros que havia partido primeiro em um hotel. “Aí saímos no mesmo dia e outros coiotes nos levaram para uma casa na fronteira da Guatemala com o México, onde havia uns 100 hispanos aguardando para entrar nos Estados Unidos. A gente ia dormir na casa de madeira, no chão de terra”. A cada ponto onde eram deixados, os coiotes sumiam e depois novos guias apareciam. Antes da hora prevista, às 22h um coiote anunciou que seria feita a travessia para o México de 17 brasileiros. “Andamos duas horas no mato escuro e fomos deixados em um curral, onde passamos a noite na poeira. O coiote nos deixou lá e no dia seguinte apareceu uma pessoa com uma caminhonete velha para nos buscar”. Na carroceria, os brasileiros deitaram um sobre os outros e foram cobertos com uma lona. Foi assim que eles entraram no México. É no trecho entre México e Estados Unidos que a vida dos imigrantes se expõe a riscos. “Outro coiote nos aguardava na serra, uma espécie de deserto. Começamos a subir e depois de quatro horas caminhando caí no chão, fraca. Vinham andando três mexicanos armados, com 10 cães. Ali é comum ladrões e estupradores que esperam os viajantes. O coiote deu um dinheiro a eles, que foram embora”, relembra Marinalda. Após o percurso, o grupo foi deixado em uma fazenda. “As pessoas iam chegando, juntaram uns 220 imigrantes no local, uma espécie de galpão de tábua, onde dormimos por seis noites. O sereno molhava tudo”. Numa certa madrugada, os mais de 200 viajantes foram colocados em um caminhão fechado por lona, com cordas para que se segurassem. Em pé, eles viajaram por 12 horas seguidas. “Foi o momento mais difícil”. No destino, os brasileiros foram levados para um hotel mexicano em Novo Laredo e depois para a travessia no Rio Grande. “A travessia se faz sem roupa, com lingerie apenas, para que não fiquem peças molhadas como pista nas margens. A gente atravessa com a ajuda de dois coiotes e o uso de uma bóia de pneu de caminhão”. Do outro lado, já nos Estados Unidos o grupo caminhou por um pasto, viu helicópteros rondando e ao chegar ao asfalto para atravessar a rodovia correndo rumo a Laredo, Texas, foi surpreendido pela patrulha norte-americana. “O coiote desaparece nessas horas. Os vi cheirando cocaína antes da travessia para serem rápidos. Nós tentamos correr, mas não deu”. Das 17 pessoas, apenas três escaparam. O grupo foi levado para a penitenciária no dia 7 de abril. Marinalda e Angélica passaram 39 dias na prisão e, após serem deportadas, chegaram sábado a Cuiabá.

Edição EDIÇÃO 16967




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