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CIDADES
Sexta-feira, 21 de Setembro de 2012, 21h:32

CONSTRUÇÃO DE CRECHE

Trabalho degradante

Funcionários relatam que faltam alimentos, não têm acesso a vale transporte e moram em alojamentos sem a menor condição de infraestrutura

STÉFANIE MEDEIROS
Da Reportagem
Trabalhadores vivem em condições precárias em uma obra para a construção do Centro Municipal de Educação Infantil em Cuiabá, no bairro Paiaguás. Eles sofrem com a carência de alimentos e não têm acesso a vale transporte, água tratada e cômodos dignos para morar. Quando reivindicam seus direitos, são ameaçados com a demissão. São no total 11 trabalhadores contratados pela da empresa G. de Almeida Brito –Engenharia e Construção, dos quais cinco vivem no alojamento da obra. Vindos de Vila Bela da Santíssima Trindade (521 km a oeste de Cuiabá), eles aceitaram o trabalho pelas propostas de produção e hora extra. Manuel Rodrigues, um dos funcionários que mora na construção, contou que os proprietários da empresa mandaram um “sacolão” com arroz, macarrão, feijão, açúcar, uma caixa de ovos, dentre outros ingredientes básicos para que eles mesmos preparassem o jantar. “Mas já faz uns dez dias que a gente não janta carne, a última que eles mandaram já acabou. Para uma pessoa que trabalha na construção civil, ovo não enche a barriga”, disse. Quanto ao café da manhã, os trabalhadores contaram que tomam apenas café, sem ter nada para comer. Emerson Rodrigues mostrou a pequena geladeira que os cinco funcionários dividem: estava vazia. “A gente tem que aguentar no café e na água até a hora do almoço. Cada um tem um sintoma diferente. Uns ficam com fraqueza, outros com desanimo. É difícil”, desabafou. O alojamento é composto de três cômodos separados: dois quartos individuais com uma cama cada e outro que inclui três camas, um fogão de quatro bocas e a geladeira. Para evitar que as primeiras chuvas molhem os colchões, os trabalhadores amarraram um pedaço de plástico no teto, que serve como o forro do local. No entanto, goteiras ainda tornam difícil manter as camas secas. Quanto o tempo está quente, o problema enfrentado são os mosquitos. “A gente não consegue dormir com a quantidade absurda de mosquito que tem aqui. É demais”. Apesar de não morar na construção, José de Almeida disse que passou cinco meses sem receber vale transporte. Ele ia trabalhar todos os dias a pé e foi ameaçado pelos proprietários a ser demitido por justa causa quando reivindicou seus direitos. O presidente do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Construção Civil de Cuiabá e Municípios (SINTRAICCCM), Joaquim Dias Santana, explicou que a empresa tem até quarta-feira para regularizar a situação. Caso algum funcionário seja demitido por ser considerado culpado pela denúncia ou não haja melhora nas condições de alojamento e refeição, uma denúncia oficial será feita à Superintendência do Trabalho. O Superintendente do Trabalho, Valdiney Arruda, explicou que não pode classificar a situação como análoga ao trabalho escravo por não ter ido pessoalmente ao local, mas que condições degradantes de vida, moradia e trabalho são elementos que configuram o crime. Ele esclareceu que a construção civil é um dos principais focos da fiscalização, por ser um dos setores com os maiores índices de acidentes. A Secretaria Municipal de Educação afirmou que ainda não recebeu nenhuma denúncia ou notificação oficial sobre o caso, mas que irá tomar as medidas cabíveis em relação à situação, podendo até chegar a rescisão do contrato da G. de Almeida Brito –Engenharia e Construção. A reportagem tentou entrar em contato com a empresa, mas as ligações não foram atendidas.

Edição EDIÇÃO 16962




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