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CIDADES
Sábado, 12 de Junho de 2010, 15h:43

NOVO CÓDIGO

Relatório de Rabelo esquenta debate em MT

Dedicado aos agricultores do Brasil, texto flexibiliza perigosamente exploração de reservas para ambientalistas, mas satisfaz, em parte, produtores

RENÊ DIÓZ
Da Reportagem
Tradicionalmente polarizada, a discussão sobre uma nova legislação ambiental brasileira costuma se dividir entre a bandeira ambientalista e a necessidade de assegurar uma produção agropecuária que continue batendo seus recordes. Em Mato Grosso, não podia ser muito diferente: entre ambientalistas e produtores daqui, a divergência também impera quando o assunto é a reforma do Código Florestal. O projeto tramita no Congresso e o voto do relator, deputado Aldo Rebelo, já provocou a indignação de um lado e aceitação com ressalvas do outro, na última semana. Enquanto os ambientalistas apontam que o Código, no geral, se pauta por uma permissividade perigosa para os recursos naturais do Estado, o setor agropecuário se diz razoavelmente satisfeito com o que dispõe o texto da maneira como está ficando, mas não sem ainda esperar que o governo colabore para aliviar os custos da regularização ambiental. O motivo da polêmica é um documento de 270 páginas que traz reformas ao atual Código, datado de 1965, e ficou sob responsabilidade de uma comissão especial da Câmara dos Deputados. A comissão pode iniciar a votação no próximo dia 23, mas pressões políticas podem redundar em adiamentos - e o ano é eleitoral. Caso isso aconteça, será novamente arrastado um embate antigo, mas que se reacendeu com a divulgação do relatório de Rebelo. Em linhas gerais, a repercussão esta semana sobre as mudanças propostas no Código (ver matéria) mais uma vez se marcou com figuras de ambientalistas e ruralistas devidamente representados. Em Mato Grosso, por exemplo, o Instituto Centro de Vida (ICV) não só considera o modelo em questão um retrocesso para o Estado, como também reprova a própria forma como os debates sobre o Código estão sendo conduzidos. Segundo o coordenador executivo Laurent Micol, as audiências públicas foram voltadas para ruralistas. O próprio relatório do projeto de lei (nº 1876/99) leva escrito, à segunda página, “Dedicado aos agricultores brasileiros”. Micol critica a visão do setor produtivo, que desconsideraria o trunfo que é o rigor na preservação dos recursos naturais. “O Estado não precisa de novos desmatamentos. O Código hoje não impõe nenhum limite ao crescimento da produção. Precisa de ajustes, mas não para torná-lo mais permissivo. Com técnicas de manejo e investimentos, já podemos aumentar a capacidade”. O ambientalista também aponta que o próprio mercado externo exige rigor para a conservação ambiental no Brasil. Cumpridas, tais restrições proporcionam ao produto nacional uma espécie de selo de qualidade e responsabilidade socioambiental, valor que não deve deixar de ser agregado. PRODUÇÃO - Mas a produção, lá fora, não funciona bem assim. Quem chama a atenção é um dos diretores da Associação dos Produtores de Soja (Aprosoja), Ricardo Arioli Silva, mencionando que conceitos como reserva legal (RL) são até difíceis de traduzir no exterior. Ele entende que o Código Florestal teve agora, em seu relatório, alguns avanços. São pontos como a isenção de reserva legal a pequenos produtores e a maior autonomia dos estados para decidir sobre limites dessas áreas e das APPs; fora o próprio fato de que ficará para trás um Código “incumprível”, que inevitavelmente criminaliza produtores. “Mas Mato Grosso cresce a níveis chineses por causa disso”, enfatiza. “No geral, o texto resolve velhos conflitos que apareceram em função de interpretações equivocadas do Código antigo”. Já para o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária (Famato), Rui Prado, a discussão do Código traz de imediato a preocupação com os custos: por quanto sairá aos produtores o cumprimento das exigências para regularização ambiental? Segundo Prado, levantamento da Famato aponta que produtores mato-grossenses arcariam com um total de R$ 7,7 bilhões para regularizar todas as propriedades - valor insustentável para o setor, similar ao total da arrecadação do Estado.

Edição EDIÇÃO 16962




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