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CIDADES
Sábado, 22 de Março de 2008, 13h:56

CORRESPONDÊNCIA

População de 130 bairros ainda não recebe

Fato ocorre na Capital e em Várzea Grande e obriga mais de 100 mil pessoas a irem buscar cartas e encomendas em postos distantes dos Correios

ALECY ALVES
Da Reportagem
É difícil aceitar que no século XXI, na era dos avanços tecnológicos, enquanto uma grande parcela da população dispõe de endereços eletrônicos e se comunica em salas de bate-papo virtuais na internet, milhares de moradores sequer recebem as mais simples correspondências em suas residências. Em Cuiabá e Várzea Grande, os Correios não chegam em 130 bairros (50 e 80 em cada cidade, respectivamente), obrigando mais de 100 mil pessoas a recorrer aos chamados “Serviços de Posta Restante”, um setor criado nas agências para armazenar as cartas e encomendas das comunidades desassistidas. Nos dois municípios há centenas de moradores que se deslocam de bairros extremos duas vezes na semana para apanhar cartas, encomendas, carnês de lojas nos postos dos Correios. A maioria deles é obrigada a pagar transporte coletivo e, se não tiver dinheiro, usar bicicleta ou fazer o percurso a pé. Indignado, o pedreiro Renato Batista de Sousa, morador do bairro Doutor Fábio, diz que não entende porque somente as contas de água e energia chegam regularmente em sua casa. “Se o meu endereço serve para entregar esses carnês, deveria ser usado também para encomendas e cartas”, desabafa ele. O Doutor Fábio, bairro onde Renato mora, existe há oito anos. Cansado da rotina de pedalar a bicicleta por mais de seis quilômetros - ida e volta de sua casa até a agência dos Correios do CPA II - o pedreiro diz que ficaria satisfeito se o serviço fosse oferecido no bairro semanalmente, através da instalação de um posto móvel na sede da associação de moradores, em alguma igreja, escola ou qualquer outro local. Aparecida Batista dos Santos, moradora do Jardim Florianópolis, bairro fundado há mais de 15 anos, diz que ultimamente vem usando o endereço de uma amiga. Ela, que trabalha o dia todo, conta que não tem tempo de ir até a agência dos Correios e esperar na fila por algo que poderia ser entregue em sua casa. Há quatro anos, desde que se mudou do CPA IV para o Jardim Aroeira, o vigilante Márcio Vieira Silva não sabe o que é entrega domiciliar de correspondência. Lázaro Rodrigues de Sousa, que mora no Novo Paraíso II, comunidade fundada há 16 anos, acha que o argumento de que o bairro não está oficialmente reconhecido não convence os moradores. “Se tem nome de rua, numeração na casa e essa identificação é suficiente para a entrega das faturas de luz e água, deveria ser também para nossas correspondências”, critica. Aos 62 anos, a aposentada Luci Siqueira, moradora do bairro Despraiado, mesmo vivendo na Capital somente tem acesso às correspondências, cartões e faturas e se for até a agência dos Correios do CPA II, situada num outro extremo da cidade. “Pego dois ônibus para chegar aqui”, reclama ela, enquanto espera na fila para retirar uma encomenda. Beneficiada pela lei do transporte gratuito para idosos, dona Luci completa: “se tivesse de pagar passagem, não sei o que faria”.

Edição EDIÇÃO 16962




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