CIDADES
Quinta-feira, 09 de Dezembro de 2010, 20h:29
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OPINIÃO
Pedrossian, eu...e o Papa Oscar Ramos Gaspar
Fui assessor especial e secretário de Comunicação Social nos quatro anos (1991-95) do último governo de Pedro Pedrossian. Já o conhecia, no entanto, desde 1979, inclusive assessorando-o em sua administração como governante indicado (1980-83) na conturbada fase de implantação de Mato Grosso do Sul. Desde que, numa tarde calorenta do verão de 1979, fui levado por Aluízio Lessa Coelho para um encontro com Pedrossian em seu refúgio na Fazenda Petrópolis, nos arredores de Miranda, tenho o privilégio de um convívio às vezes mais próximo, com intimidade de almas, às vezes apenas pontuado por encontros bissextos, mas sempre intensos com uma das personalidades mais marcantes que conheci. Fui naquela primeira vez à Fazenda Petrópolis com a missão de escrever para Pedrossian um texto que só depois saberíamos, é claro mudaria a história política do nascente Mato Grosso do Sul. Tarefa desafiadora, cumprida com estóica aplicação de uma noite quase inteira desafiado por uma hoje pré-histórica Lettera 66. Ao amanhecer, Pedrossian aprovou com louvor o texto, e vaticinou que nascia ali uma amizade para a vida inteira. Nunca encontrei alguém que expressasse com tanta fidelidade as minhas idéias, me disse. Não era pouco. Afinal, embora à época já um jornalista experiente, eu tinha noção de estar diante de uma lenda da política regional. Desde então, Pedrossian renunciou a um mandato quase inteiro de senador para assumir o governo indireto de Mato Grosso do Sul por dois anos e pouco, amargou um período de esquecimento e fez uma volta triunfante à cena política, elegendo-se governador em 1990, no que seria a reedição da campanha do tostão contra o milhão em que batera Lúdio Coelho pelo governo do então uno Mato Grosso. Convidado a integrar seu governo, sempre estive muito próximo de Pedrossian. Como assessor especial ou secretário de Comunicação, fui sempre o responsável pelos textos todos eles, incluindo condolências e afins assinados ou lidos por Pedrossian. Sempre me dizia e repete hoje que por isso eu era dono de sua alma. Você sabe o que eu penso, o que sinto, dizia ao final da leitura em voz alta que fazia para ele. Na verdade, eu me apossava, sim, de nesgas da alma de Pedrossian durante as longas e estimulantes conversas que mantínhamos nas madrugadinhas sua fama de madrugador, aliás, vem desde que era gerente da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil - ou fins de tarde em seu gabinete no Parque dos Poderes. Não era raro que essas conversas resultassem em novas idéias e projetos governamentais. Ou derivassem para a leveza de assuntos absolutamente desimportantes. Às vésperas da visita do Papa João Paulo II a Campo Grande, discutíamos o estágio dos preparativos quando Pedrossian manifestou seu desapontamento com toda aquela mobilização. Como estávamos sós, disse-lhe: Se lhe conheço bem, o senhor gostaria mesmo era de sapecar uma bênção no Santo Padre humildemente ajoelhado a seus pés... Pedrossian explodiu em gostosa gargalhada. Que para mim ficou como uma validação nada velada de minha opinião. Pedrossian sempre foi assim: absolutamente cioso de sua autoridade, consciente de seu papel de desbravador de fronteiras mentais. E dono de uma sensibilidade incomum para identificar competências e cooptá-las para suas causas. Não por outra razão, uma vasta gama de lideranças políticas, acadêmicas e empresariais tem, de alguma forma, origem genética ou derivação direta do que muitos chamam de pedrossianismo. Oscar Ramos Gaspar é jornalista