CIDADES
Sexta-feira, 29 de Junho de 2012, 22h:46
A
A
RELIGIÃO
O êxodo da fé católica
Em um intervalo de 20 anos, as igrejas evangélicas avançaram entre os fieis de Mato Grosso, enquanto a Católica recuava
STÉFANIE MEDEIROS
Especial para o Diário
A proporção de católicos na população de Mato Grosso caiu 23% em duas décadas. Em 1991, de cada 100 mato-grossenses, 83 eram católicos. Em 2010, este número reduziu para 64. Já as igrejas evangélicas vêm ganhando cada vez mais fiéis, crescendo de 11,13% para 24,55% no período. Os dados fazem parte do Censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas). O mesmo se repete nacionalmente. Analisando os mesmos 20 anos, os católicos no Brasil passaram de 83,3% para 64,6% e os evangélicos de 9% para 22,2%. Eu encontrei na igreja evangélica o calor humano que faltava na católica, conta a pastora Romilda Pinto, da Igreja Batista Nacional. Antes de se converter, Romilda conta que saía da missa chorando, e ninguém perguntava o porquê. Segundo ela, foi na igreja evangélica que encontrou o amor manifesto, em oposição ao amor oculto que tinha antes. Para ela, esse é o principal motivo da conversão dos fiéis. Há muita carência, e no evangelismo as pessoas demonstram suas emoções, a gente sente. A perda de fiéis envolve vários fatores, segundo o padre Deusdedt Almeida, da paróquia Coração de Maria. Para ele, hoje em dia não há mais a tradição de os pais passarem sua religião para os filhos, pois tudo é muito mais subjetivo do que alguns anos atrás. Os filhos têm a liberdade de escolher a religião na qual se sentirem melhor. As pessoas estão comandadas pela sua emoção. Elas vão onde se sentem bem, diz. O padre também considera a existência de cristãos peregrinos, pessoas que mudam frequentemente de religião e muitas vezes voltam para a primeira. Pode ser que na hora da pesquisa a pessoa se diga de uma igreja, mas alguns dias depois ela muda, volta para a Católica. Por fim, Almeida diz que o catolicismo não se baseia mais no proselitismo, tentando converter e manter fiéis a todo custo, e sim busca o diálogo com as outras religiões. O que nos une é muito mais do que nos separa, conclui. Segundo o professor da UFMT, Rodrigo de Jesus, mestre em filosofia da religião, a igreja católica é dividida em várias correntes - sendo as três principais: a conservadora, de caráter mais combativo às mudanças sócio-políticas; a modernista, engajada em acompanhar as transformações da sociedade; e a renovação carismática, mais voltada para o individualismo, porém mantendo os dogmas do catolicismo romano. A mesma divisão ocorre nas evangélicas: a de protestantismo histórico, proveniente da reforma de Martinho Lutero; a pentecostal, semelhante ao movimento carismático católico; e a neopentecostal, que relaciona o bom cristão ao seu sucesso financeiro, espiritual, emocional e físico. De acordo com o professor, o aumento de fiéis evangélicos e a queda dos católicos podem ser atribuídos às mudanças ocorridas no quadro econômico e político dos últimos anos, quando o individualismo e o sucesso pessoal são cada vez mais priorizados. Eu não mudo só porque quero. Há todo um contexto social e político envolvido, diz. Transformações como essas acabam repercutindo nas questões religiosas. Por isso o evangelismo acaba ganhado mais seguidores, pois incorpora em suas doutrinas ideais voltados para o indivíduo, onde ele seria responsável pelo próprio sucesso. Outra razão do crescimento evangélico apontada por Rodrigo é o uso dos meios de comunicação de massa pelas igrejas.