O agronegócio brasileiro ficou de fora da nova rodada de tarifas anunciada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, evitando um novo impacto sobre um dos principais setores da economia nacional.
A decisão é especialmente relevante para Mato Grosso, maior produtor agrícola do Brasil e um dos líderes nacionais na exportação de carne bovina, milho, soja e algodão.
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A exclusão dos principais produtos agropecuários brasileiros da nova lista de sobretaxas é vista como um reconhecimento da dependência do mercado americano de alimentos importados e dos efeitos negativos que as tarifas impostas em 2025 provocaram na economia dos Estados Unidos.
O aumento dos preços ao consumidor e a pressão inflacionária acabaram levando a Casa Branca a rever parte de sua estratégia comercial.
Apesar do alívio momentâneo, os reflexos do chamado “tarifaço” ainda são sentidos pelos exportadores brasileiros.
Em diversos segmentos, os Estados Unidos buscaram fornecedores alternativos durante o período em que os produtos brasileiros enfrentaram sobretaxas, e parte desse mercado ainda não foi recuperada.
O caso mais emblemático é o do café. Principal item do agronegócio brasileiro exportado para os Estados Unidos, o produto registrou forte queda nas vendas.
Dados do Governo americano mostram que as exportações brasileiras renderam US$ 785 milhões no primeiro trimestre de 2025.
No mesmo período deste ano, o valor caiu para US$ 532 milhões.
Enquanto o Brasil perdeu espaço, concorrentes avançaram rapidamente. A Colômbia, que exportava menos café que os brasileiros para os Estados Unidos no início de 2025, agora vende 46% mais.
Honduras ampliou suas exportações em 158%, enquanto a Guatemala registrou crescimento de 104%.
Até a Alemanha, que não produz café, aumentou em 106% suas vendas para o mercado americano, graças ao comércio de café industrializado e reexportado.
No setor de carnes, porém, o cenário é mais favorável para o Brasil.
A demanda crescente dos Estados Unidos por carne bovina abriu espaço para o avanço dos frigoríficos brasileiros.
Segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), o Brasil exportou 120 mil toneladas de carne bovina para o mercado americano no primeiro trimestre deste ano, crescimento de 36% em relação ao mesmo período de 2025.
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) estima que esse volume já tenha alcançado 150 mil toneladas até abril.
A notícia é particularmente positiva para Mato Grosso.
O Estado possui o maior rebanho bovino do país, com mais de 35 milhões de cabeças, e lidera as exportações brasileiras de carne bovina.
O mercado americano tem se tornado cada vez mais importante para os frigoríficos instalados em território mato-grossense, especialmente diante da ampliação da demanda global por proteína animal.
O crescimento das exportações brasileiras ocorre em um momento de fragilidade da pecuária norte-americana.
Os Estados Unidos enfrentam redução histórica de seu rebanho bovino, consequência de secas prolongadas e custos elevados de produção. Como resultado, o país tornou-se cada vez mais dependente da importação de carne.
Somente no ano passado, os americanos gastaram US$ 14 bilhões na compra de carne bovina do exterior, valor 30% superior ao registrado no ano anterior.
Nos supermercados, os consumidores sentem o impacto diretamente no bolso.
Dependendo do corte, os preços da carne bovina acumulam alta entre 15% e 18% em 12 meses, muito acima da inflação média dos alimentos, que gira em torno de 3,2%.
O café também segue pressionando os índices inflacionários americanos.
Dados do Bureau of Labor Statistics mostram que o café torrado acumula alta de 18,5% nos últimos 12 meses, enquanto o café solúvel registra aumento de 23%.
Essa pressão sobre os preços ajuda a explicar por que Trump optou por não incluir novamente diversos produtos agrícolas brasileiros entre os alvos das novas tarifas. O custo político de elevar ainda mais os preços dos alimentos para o consumidor americano seria elevado.
Além das consequências das disputas comerciais, os Estados Unidos enfrentam novos desafios relacionados ao aumento dos custos de produção.
A guerra envolvendo Israel, Estados Unidos e Irã provocou forte valorização dos fertilizantes, insumo fundamental para a agricultura mundial. O conflito também impulsionou os preços da energia.
Segundo o levantamento, os custos com óleo combustível aumentaram 54%, enquanto a gasolina acumula alta de 28%, elevando despesas com transporte e logística de alimentos.
Mesmo com esses desafios, o déficit da balança comercial agrícola americana deve apresentar melhora em relação ao ano passado.
A previsão é de saldo negativo de US$ 29 bilhões no atual ano fiscal, abaixo dos US$ 44 bilhões registrados anteriormente.
Ainda assim, o resultado demonstra que os Estados Unidos continuam cada vez mais dependentes da importação de alimentos.
Para Mato Grosso, o cenário reforça a importância estratégica do Estado no abastecimento global de alimentos.
Como principal potência agropecuária brasileira, o estado segue beneficiado pela crescente demanda internacional por grãos e proteínas animais, especialmente em mercados que enfrentam dificuldades para ampliar sua própria produção.




