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CIDADES
Quinta-feira, 05 de Agosto de 2010, 20h:19

JUÍNA

MPF denuncia suspeitos de acuar grupo

Ambientalistas e jornalistas que tentavam fazer documentário entre índios enawenê nawê em 2007 foram mantidos em cárcere privado na cidade

RENÊ DIÓZ
Da Reportagem
O Ministério Público Federal (MPF) denunciou o ex-prefeito de Juína (a 735 km), Hilton Campos, o ex-presidente da Câmara Municipal da cidade, Francisco de Assis Pedroso, e uma série de empresários e PMs por terem mantido um grupo de jornalistas e ativistas ambientais, brasileiros e estrangeiros, em cárcere privado por dois dias. O fato aconteceu em agosto de 2007. O grupo de “figurões” da cidade temia que o grupo de menos de dez pessoas, a maioria mulheres, por ventura desvendasse e divulgasse a ocupação indevida de fazendeiros e autoridades da cidade em terras reivindicadas por índios da etnia enawenê nawê, segundo o procurador da República Douglas Santos Araújo, um dos autores da ação penal. O grupo havia chegado à cidade com a intenção de produzir um documentário sobre a relação dos índios da região com a natureza. Entre eles, estavam ativistas de organizações como o Greenpeace e Operação Amazônia Nativa (Opan). O hotel onde eles estavam foi cercado pelos fazendeiros, autoridades e policiais e exigiu que o grupo hospedado fosse expulso da cidade. Por conta da recusa em se retirar da cidade, todos foram levados para o prédio da Câmara Municipal, onde ficaram trancados por seis horas sob ameaças feitas inclusive pelo então prefeito. “Não vamos deixar vocês entrarem na área, pode vir a polícia... nós vamos fazer a guerrilha”, teria dito Campos, segundo a denúncia do MPF. Outra declaração constante na denúncia é do então presidente do Conselho de Segurança Pública de Juína, Natalino Lopes dos Santos: “A imprensa internacional tem o direito de vir aqui e fazer o que bem entende sem o nosso conhecimento, levar informação sei lá pra onde? A nosso respeito? A respeito de nossos índios? Porque os índios são nossos!”. Santos também teria dito que usaria tudo que estivesse ao alcance, como a polícia, para retirar os jornalistas e ambientalistas da cidade, mas amenizou dizendo que queria manter um clima amistoso. Definitivamente, segundo o MPF, a simples presença dos jornalistas e ambientalistas tumultuou toda a cidade. Depois de passar pela Câmara, o grupo voltou a ser acuado no Imperial Palace Hotel, sempre sob os olhos de autoridades e fazendeiros temerosos de que ele abordasse a demarcação de terras indígenas ocupadas ilegalmente. Há também relatos de agressões e o MPF conta que até o piloto responsável por levar o grupo a Juína voltou para Vilhena (RO) para garantir sua integridade física. O grupo de jornalistas e ambientalistas também teria sido levado à força ao aeroporto para ser expulso. Além disso, o escritório da Fundação Nacional do Índio (Funai) na cidade foi invadido por mais de dez pessoas protestando que Juína não era lugar para índios, desacatando as autoridades do órgão e até ameaçando de morte dois servidores. DENÚNCIAS - Após a investigação policial, o MPF analisou todo o episódio e decidiu denunciar oito pessoas. O ex-prefeito e o ex-presidente da Câmara foram denunciados por constrangimento ilegal, sequestro e cárcere privado. Os mesmos crimes foram imputados a Geraldo Bento, Natalino Lopes dos Santos, Aderbal Bento e Paulo Perfeito, sendo que os dois últimos também responderão por ter desacatado funcionários da Funai. Já o dono do hotel, João Marques Cardoso, responderá por ter dado falso testemunho sobre o caso, e o coronel da PM, Ricardo Almeida Gil, por ter se omitido em relação aos crimes quando eles aconteceram. Segundo o procurador Douglas Santos Araújo, este foi uma covarde miscelânea de delitos: violência ao índio, cerceamento da liberdade de imprensa, à liberdade de locomoção e uso indevido de cargo público. “Serve como alerta da sociedade de que condutas desse tipo não serão mais toleradas”.

Edição EDIÇÃO 16960




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