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CIDADES
Sexta-feira, 26 de Dezembro de 2008, 21h:57

VIOLÊNCIA

Mais de 5,2 mil mulheres denunciam em MT

Ameaças e agressões sofridas em casa, registradas até novembro, demonstram maior consciência por parte das vítimas em denunciar algozes

KEITY ROMA
Da Reportagem
A violência doméstica tornou o Natal da dona-de-casa C.R.O, de 27 anos, e de seus quatro filhos diferente dos anos anteriores. A família celebrou a data em um abrigo, onde mora desde que a mulher decidiu denunciar as agressões e ameaças sofridas pelo marido alcoólatra. A ocorrência faz parte de mais de 5.200 denúncias registradas entre janeiro e novembro deste ano nas cinco delegacias de Defesa da Mulher do Estado. Apesar de haver casos graves, até mesmo que acabam em homicídio passional, a maioria deles está ligada à violência cotidiana que se agrava com o passar dos anos e com o temor da vítima em denunciar. “O que vem aumentando é o número de denúncias, e não os casos de violência em si. As pessoas estão se conscientizando que é preciso denunciar”, falou a delegada Especializada de Defesa da Mulher, Silvia Virgínia Biagi. C.R.O se encaixa no perfil de grande parte das vítimas. O casamento de 13 anos acabou pelo fato de o marido se tornar violento quando bebe. “A gente se casou há 13 anos, quando eu tinha 14 anos. Ele era uma pessoa boa, mas se viciou no álcool e começou a me agredir. Quando chegava bêbado, me batia até mesmo na frente das crianças”, relatou. Empurrões, xingamentos e tapas se tornaram freqüentes no relacionamento conjugal. Cansada, ela foi até o Cisc do Planalto e registrou um boletim de ocorrência contra o agressor. Contudo, voltou para casa por falta de alternativas. “Eu não tinha para onde ir”. Os desentendimentos persistiram. “Um dia, ele disse que me trancaria em casa. Eu estava deitada e ele jogou pólvora em mim e tentou acender o isqueiro para me queimar, o que, por sorte, não funcionou. Depois pegou um espeto para me furar, mas a mãe dele o convenceu a parar”, contou ela. Foi dessa vez que C.R.O deixou sua casa e foi para um abrigo, onde ficam apenas mulheres vítimas de agressões. Há dois meses ela mora no local com os quatro filhos, que têm entre 9 e um ano de idade. Ela não mantém contato com o marido e espera a audiência de conciliação na Justiça para finalizar o processo de divórcio. Quando questionada sobre os motivos que levaram a mulher a evitar a denúncia por quatro anos, ela é clara. “Eu ainda gostava dele e não queria ver o pai dos meus filhos preso. Acima de tudo, ele era um bom pai”, falou. Além disso, como em outros casos, pesou ainda a dependência financeira. Enquanto ele sustentava a casa com o serviço de porteiro, ela cuidava dos filhos e não tinha rendimento próprio. São casos como o de C.R.O que começam a vir a tona com a consolidação da chamada Lei Maria da Penha. A delegada afirmou que a tendência para os anos seguintes é a quantidade de denúncias crescer. As mais de 5.200 ocorrências registradas em 2008 resultaram em 1.924 inquéritos policiais. No período, foram adotadas 1.250 medidas protetivas para assegurar a integridade das vítimas, e 410 agressores foram presos, em flagrante ou por mandado de prisão. Com exceção do último mês do ano, em Cuiabá 1.151 vítimas procuraram delegacias para denunciar e 600 medidas protetivas foram adotadas na Capital. Nas unidades, grande parte das queixas se refere a lesões corporais e ameaças em situações de conflito conjugal entre homens e mulheres. Das queixas registradas em Cuiabá nos 11 meses, 589 são de ameaças, 165, de lesão corporal, e 237, de perdas de documentos, segundo a assessoria de imprensa da Polícia Civil. Ciente das dificuldades que enfrentará em breve, C.R.O se disse aliviada pela decisão que tomou. “Agora quero trabalhar e cuidar dos meus filhos”. A delegada afirmou que a importância de denunciar está no fato de prevenir que as ocorrências se agravem. “Às vezes começa com uma ameaça e pode terminar com um homicídio”, disse. O número para denúncias é 127, além das delegacias comuns e especializadas.

Edição EDIÇÃO 16967




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