CIDADES
Sábado, 09 de Junho de 2007, 14h:26
A
A
ESPECIAL V
Longe do mar, MT também sofre efeito
Alteração no regime de secas e cheias deverá interferir na produção agrícola, reduzindo a produtividade das lavouras do Estado
RODRIGO VARGAS
Da Reportagem
A distância das regiões costeiras não livrará Mato Grosso das conseqüências do aquecimento global. Muito embora não haja respostas conclusivas a respeito da intensidade das mudanças, é certo que os regimes de secas e cheias serão afetados. Isso poderá interferir, por exemplo, na produção agrícola. Confirmados os cenários previstos, com aumento de até 4ºC na temperatura média do planeta, certamente haverá aumento da umidade do ar, o que modificará o atual regime de distribuição de chuvas, explica a geógrafa e climatologista Gilda Maitelli, professora do Departamento de Geografia da UFMT. Em função disso, uma aposta certeira é a queda na produtividade da maior parte das lavouras. Todos os métodos de cultivo foram desenvolvidos a partir de uma realidade climática que poderá deixar de existir. Certamente haverá a necessidade de adaptações ou mesmo o abandono de determinadas culturas. A possibilidade de savanização de parte da Amazônia prevista no relatório do IPCC (ver matéria) - é mais outro fator capaz de induzir alterações no atual ciclo de chuvas. De acordo com Gilda, o Estado deve à influência da floresta uma grande parte de suas precipitações anuais. Existe um corredor de vento que vem do Atlântico e que é afetado na passagem pela Amazônia. Isto afeta nosso clima. Se a vegetação for modificada, não é possível saber como ficarão os corredores de ar. Regiões que hoje recebem muita chuva poderão sofrer com a estiagem, e vice-versa. No campo da saúde pública, também é possível esperar o aumento do raio de distribuição de doenças como a dengue e a malária. No rastro da temperatura e da umidade em elevação surgirão ambientes propícios à reprodução de muitos insetos incluindo-se os mosquitos transmissores dessas e outras enfermidades. As doenças transmitidas por insetos têm uma conexão direta com o clima. Alterações podem intensificar a propagação de doenças ou fazer surgirem novas, diz a especialista. Se houver mais aquecimento, este será um efeito inevitável. Dependente direto do regime climático, o Pantanal é outro bioma que poderá enfrentar transformações ainda incertas. Conforme deixou claro estudo lançado recentemente pelo Ministério do Meio Ambiente, os modelos atuais de projeções são ainda menos imprecisos quando aplicados a este ambiente (ver matéria). Certamente, o Pantanal não fica do jeito que é hoje. É possível considerar até mesmo algum efeito na ocorrência de determinadas espécies. O fato é que todos os biomas, e seus diversos ecossistemas, serão afetados. Para Gilda Maitelli, o tema é muito mais complexo do que aparenta e necessita de ações integradas. Não se trata apenas de temperatura, não se trata de comprar mais aparelhos de ar-condicionado. Estamos livres da invasão das águas dos oceanos, mas vamos sofrer outros graves efeitos. O problema é não é dos outros, mas também nosso. O momento para iniciar as mudanças é agora, defende a professora, em que a ciência conseguiu quebrar a barreira de incredulidade que sustentava a inércia dos governos. Para a maioria dos pesquisadores, a questão da interferência humana sobre o clima já era um fato. Hoje, diante de tantas evidências, os políticos se viram forçados a admitir que o aquecimento é culpa nossa. Um risco, mas também uma oportunidade de mudar, para melhor, as formas de lidar com os recursos naturais. A atmosfera não é deste ou daquele país. Ela é nossa. É da humanidade. O que fizermos para prejudicar seu equilíbrio no Brasil irá afetar seres humanos de todas as partes do mundo.