CIDADES
Sábado, 09 de Junho de 2007, 14h:23
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ESPECIAL II
IPCC dizima dúvidas sobre ação humana
O 4º Relatório de Avaliação apresenta dados que comprovam relação entre aquecimento global e o homem
RODRIGO VARGAS
Da Reportagem
Dois mil dentre os melhores cientistas de 130 países podem estar errados? Claro! Todos ao mesmo tempo e sobre o mesmo assunto? Sim, embora seja pouco provável que um consenso dessa magnitude se forme a partir de uma quimera. É preciso, porém, reconhecer que as conclusões apresentadas nos últimos meses pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), das Nações Unidas, conseguiram finalmente estabelecer um marco em torno do qual não é mais possível manter indiferença. Lançado em três partes em eventos de grande repercussão em Paris, Bruxelas e Bangcoc -, o 4º Relatório de Avaliação do IPCC apresenta um consistente diagnóstico do desequilíbrio climático imposto ao planeta pela ação humana. Seu conteúdo se vale de dezenas de evidências científicas para indicar os fatores de risco em escala global e ainda indica medidas que poderão mitigar, na medida do possível, os efeitos do agravamento das mudanças já sentidas hoje. O primeiro capítulo, publicado em fevereiro, se ocupou em descrever o que é e, principalmente, quem causa o aquecimento. Foi a primeira vez que a possibilidade de um processo não-natural passou de provável para muito provável, segundo a avaliação do IPCC. É muito provável que a maior parte do aumento observado nas temperaturas médias globais desde meados do século XX se deva ao aumento observado nas concentrações antrópicas de gases de efeito estufa, diz o relatório. A proporção destes gases dióxido de carbono, principalmente, mas também metano e óxido nitroso na atmosfera é hoje muito superior ao que já foi no passado pré-industrial. A comparação é possível por meio da análise de amostras de ar aprisionadas em camadas de gelo por milhares de anos. A concentração atmosférica global de dióxido de carbono aumentou de (...) cerca de 280 ppm3 para 379 ppm3 em 2005. A concentração atmosférica de dióxido de carbono em 2005 ultrapassa em muito a faixa natural dos últimos 650.000 anos, como determinado a partir de testemunhos de gelo. No caso das medições diretas contínuas, que cobrem o período de 1960 a 2005, o relatório aponta que a concentração anual de CO2 foi mais elevada nos últimos dez anos. No caso do metano e óxido nitroso, a tendência é semelhante. Os aumentos globais da concentração de dióxido de carbono se devem principalmente ao uso de combustíveis fósseis e à mudança no uso da terra. Já os aumentos da concentração de metano e óxido nitroso são devidos principalmente à agricultura. O que fez mobilizar os governos de todo o mundo, porém, foi semelhança entre as curvas da poluição atmosférica e da temperatura média do planeta. Para os cientistas, há 90% de possibilidade de que os dois indicadores estejam conectados. O aquecimento do sistema climático é inequívoco, como está agora evidente nas observações dos aumentos das temperaturas médias globais do ar e do oceano, do derretimento generalizado da neve e do gelo e da elevação do nível global médio do mar. Nos últimos doze anos foram registradas as onze maiores médias anuais de temperatura das quais se tem registro. A tendência linear de aquecimento ao longo dos últimos 50 anos (0,13 [0,10 a 0,16]ºC por década) é quase o dobro da dos últimos 100 anos. O que também aumenta, apontou o IPCC, é o grau de certeza a respeito das projeções climáticas. Foram feitos avanços na compreensão de como o clima está mudando em termos espaciais e temporais, por meio da melhoria e da ampliação dos numerosos conjuntos de dados e das análises dos dados. É o caso de repetir a pergunta. Dois mil dentre os melhores cientistas de 130 países podem estar errados? Talvez seja mais prudente não pagar para ver!