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Cuiabá MT, Segunda-feira, 08 de Junho de 2026

CIDADES
Sábado, 27 de Março de 2004, 16h:25

DITADURA IV

Historiador questiona mitos de 1964

Professor Carlos Bertolini diz que, apesar dos esforços pela deposição de Goulart, não havia golpe em curso

RODRIGO VARGAS
Da Reportagem
Entre as recordações de infância do economista e historiador Carlos Bertolini, está a imagem de uma coluna de tanques de guerra a cruzar a única rua asfaltada de seu bairro em Campinas, no interior de São Paulo. Era o mês de abril de 1964 e ele mal sabia que sua vida jamais seria a mesma. Professor da Universidade Federal de Mato Grosso desde 1982 e um estudioso dos 21 anos de ditadura que sucederam aquele episódio traumático, Bertolini tem se dedicado a desfazer o emaranhado de mitos e incorreções históricas que o cercam. Discorda frontalmente da idéia de que tenha havido um golpe em março de 1964. No máximo, admite, um contragolpe. “João Goulart planejava sim dar um golpe contra o Parlamento, ainda que em aliança com os setores populares. Eram, portanto, duas montarias golpistas correndo na mesma raia”, opina. Nessa segunda-feira, às 19h30, Bertolini será um dos palestrantes do debate “40 anos do Golpe Militar”, promovido pelo Departamento de História e o Sindicato dos Trabalhadores em Processamento de Dados (Sindpd/MT) no Auditório do Centro Cultural da UFMT. DIÁRIO – Onde está a origem dos eventos de 1964? BERTOLINI – Em vários fatores. Um deles é a atuação dos militares golpistas pró-americanos, que já haviam se indisposto com Vargas em 1945, e que travam outra batalha durante todo o seu segundo governo, levando-o à segunda deposição e ao suicídio em 1954. Estes mesmos militares, depois de derrotas em 1955 e 1961, se articulam e estão muito mais bem preparados depois de vislumbrar, em setembro de 1963, a possibilidade de ruptura na hierarquia das Forças Armadas. A partir daí, o que se viu foi um movimento cívico-militar muito mais articulado que a chamada “Revolução de 1930” e que envolveu campanhas publicitárias em jornais, revistas, cinemas. Tudo com o objetivo de criar desgaste e hostilizar João Goulart e toda a esquerda brasileira. Mas é preciso dizer que, ainda que houvesse múltiplos investimentos pela deposição de João Goulart, não havia um golpe em curso para substituí-lo, não havia uma senha. DIÁRIO – O fato de João Goulart ser tido como herdeiro de Getúlio Vargas contribui para sua deposição? BERTOLINI - Isso seria correto se ficássemos na aparência, no fenomênico e entendêssemos a política como uma desavença apenas entre pessoas. Em primeiro lugar, a expressão golpe é inadequada. Como dizer que houve um movimento em 31 de março? A idéia de um golpe militar stricto sensu era acalentada desde 1922 com o Movimento Tenentista. Mas o padrão a que seguiam os “Dezoito do Forte de Copacabana”, em 1922, os revolucionários de 1924 e a Coluna Prestes, por exemplo, continuou até 1961 numa sucessão de golpes da qual os episódios de 1930 e 1937, a deposição de Vargas em 1945, o suicídio de Vargas em 1954, a novembrada de 1955, a renúncia de Jânio Quadros, e a campanha da legalidade pela posse de João Goulart, em 1961 são parte de um mesmo ato. Há uma ruptura, uma profunda descontinuidade entre a seqüência de golpes militares iniciada desde a instauração da República e os episódios de 1964. DIÁRIO – Não houve golpe em março de 1964? BERTOLINI - Inequivocamente, do ponto de vista da historiografia, não é possível dizer que houve golpe em 31 de março. Primeiro porque não havia uma direção central do movimento golpista. O que se assemelhava a isso era a irritação ativa e pessoal dos governadores Carlos Lacerda, da Guanabara, e Magalhães Pinto, de Minas Gerais, somada à indignação passiva do governador de São Paulo, Adhemar de Barros. Isso já vinha desde muito antes de 31 de março, por consequência, por exemplo, da revolta dos sargentos em setembro de 1963, que tomou Brasília por dois dias, e do fato de que o grupo de João Goulart também articulava um golpe. Ou seja, o que houve foi um contragolpe. DIÁRIO – O que faz o senhor acreditar nisso? BERTOLINI - A principal pista é a tentativa de estabelecimento por Goulart de um estado de sítio no país em outubro de 1963, que foi negada pelo Parlamento. Então, na realidade, figuras como Leonel Brizola e Miguel Arraes (governadores, respectivamente, do Rio Grande do Sul e Pernambuco) já diziam: ou nós damos o golpe, ou ele virá do outro lado. Este clima golpista já estava em franca ebulição desde setembro de 1963 e os episódios de 31 de março, protagonizados por dois generalecos sem nenhuma importância (O comandante da Infantaria Divisionária/4, general Carlos Luiz Guedes e o general da 4ª região militar e da 4ª Divisão de Infantaria, Olympio Mourão Filho, ambos de Minas Gerais), não representaram a derrota do dispositivo militar de João Goulart. A virada ocorre no dia 1º de Abril e a sublevação só iria perceber que vitória lhe sorrira no dia 2. DIÁRIO - Mas não se pode dizer que Guedes e Mourão Filho acionaram o dispositivo militar da conspiração? BERTOLINI – Na verdade, ambos saíram à frente por motivos particulares. Basta olhar o caso do general Guedes, por exemplo, que já havia perdido o comando de tropa e, se não tivesse feito aquilo, iria para o Rio de Janeiro ficar no que eles chamavam de canil, atrás de uma mesa, comandando papel. Os dois não têm nada a ver com o que é mais importante: a articulação que distingue 1964 dos golpes anteriores. A Marcha com Deus pela Família e pela Liberdade (19/03/1964) ocorreu como a sinalização, como a resposta inequívoca de um amplo espectro de alianças entre civis e militares - que articulou desde a UDN até os setores de extrema-direita, com os militares da Escola Superior de Guerra (ESG) (os mesmos que vinham aplicando golpes desde a deposição de Vargas em 1945) – numa demonstração de que a aproximação de Goulart com a esquerda, afirmada no Comício das Reforma de Base (13/03/1964), não ficaria sem resposta à altura. DIÁRIO – De que lado estava a população? BERTOLINI – Havia um apoio civil amplo, inclusive da classe média. Soube depois que setores do movimento golpista mandaram olheiros ao Comício das Reformas de Base (ou Comício da Central do Brasil no Rio de Janeiro) para verificar se todo aquele grupo de cidadãos que lá estava apoiava efetivamente o que era dito pelo presidente e seu grupo. Foi uma avaliação qualitativa, que revelou que aproximadamente 95% não apoiariam a estratégia golpista de “reformas na lei, ou na marra”. Ou seja, o proselitismo nacionalista, do lado das forças populares, teria de avançar ainda por muito tempo, até que o projeto reformista de João Goulart encontrasse efetiva repercussão e articulasse uma ampla base social de apoio, não apenas com as lideranças sindicais, com as entidades estudantis e as ligas camponesas. Se a população não conseguia compreender, de imediato, a profundidade dos eventos que testemunhava, por outro lado, da parte dos setores mobilizados, não havia como negar a proximidade de um efetivo “acerto de contas” entre os grupos dirigentes que se opunham desde o final do Estado Novo. Ainda que não se tivesse clareza sobre a direção dos eventos no início de abril de 1964, as perseguições às lideranças e aos militantes - a “operação limpeza” - não deixaram dúvida sobre quem seriam os vencedores e quem seriam os derrotados. DIÁRIO – O que determinou que em março e abril daquele ano ocorresse a deposição do presidente? BERTOLINI – Havia, por exemplo, a organização dos comícios das reformas de base, que começou em 13 de março e cujo programa iria até 1º de maio com um grande comício em São Paulo. Isso foi entendido como a própria execução da estratégia golpista de João Goulart, depois do fracasso na tentativa de estabelecer o estado de sítio. Eis que, no dia 24 de março, ocorreu uma reunião nacional da Frente de Mobilização Popular do Brizola e do Grupo dos Onze, na qual se concluiu: “nós temos que dar o golpe agora, ou ele virá da direita!”. E João Goulart planejava, sim, dar um golpe contra o Parlamento, ainda que em aliança com os setores populares, ainda que em aliança com os movimentos estudantis e ligas camponesas, mas seria um ataque às instituições e ao quadro legal da Carta de 1946. Eram, portanto, duas montarias golpistas correndo na mesma raia. DIÁRIO - Onde o senhor estava quando eclodiram os eventos de março de 1964? BERTOLINI - Eu tinha apenas sete anos de idade quando vi a coluna de tanques passar no bairro onde eu morava, em Campinas, no interior paulista. Era meu primeiro mês de aula e lembro do susto que eu tomei, e do pavor que tomou conta da rua onde eu morava. Diziam que aquilo era apenas o começo e que depois os soldados iriam revistar casa por casa em busca de armas e de qualquer pista que revelasse vinculação aos comunistas. Eu sabia que aqueles tanques iam estragar todo o asfalto da única ligação entre meu bairro e o centro da cidade: me lembro de ter sido esta a minha primeira preocupação com o golpe. A seguir, meus familiares e os demais adultos aguardavam, com imensa preocupação, a chegada da “operação limpeza” com as buscas e as apreensões que se tornariam usuais na vida de meu bairro. A segunda preocupação que pude perceber foi com as denúncias de vizinhos, uns contra os outros: como alguém que convive durante anos com seu próximo poderia denunciá-lo às forças de repressão? Como alguém poderia colocar em risco a vida de uma família e de um lar estruturado por questões de política? DIÁRIO – E quando foi que esta preocupação inicial ganhou cor política? BERTOLINI – Olha, como jovem, como pessoa que aspirava obter o máximo de cultura e educação do sistema público, eu tinha muito clara a minha divergência pessoal com a ditadura militar. Eles faziam o possível para evitar a minha participação e a minha conscientização, seja pela repressão aos professores, à produção de conhecimento nas universidades e aos intelectuais. Então não era apenas uma questão ideológica. Era inclusive a forma de um jovem filho de trabalhador industrial sonhar progredir na vida pelos seus próprios méritos, e não por ser filho de empresário, de político bem quisto pela ditadura ou de militar. Antes mesmo de entrar para a faculdade, portanto, eu já havia percebido que a democracia era fundamental para a minha ascensão social e profissional. Mais tarde, a partir da década de 80, terminada minha graduação na Universidade Estadual de Campinas, eu passei a ter contato, como aprendiz, com uma geração de intelectuais que se dedicou a entender o autoritarismo da ditadura militar. Foi quando comecei a perceber a sua vasta complexidade e a importância da investigação histórica para elucidar as múltiplas dimensões dos danos por ela causados. DIÁRIO – Quarenta anos depois, qual o legado deste período? BERTOLINI – O chamado golpe de 1964 foi uma construção de agentes liberticidas. Ou seja, aqueles que quiseram acabar com as poucas liberdades garantidas na república liberal. Liberdades que lhes eram insuportáveis. O golpe foi dado contra os setores populares, contra o avanço da mobilização e da democracia no Brasil. O país perdeu muitíssimo. Para se ter uma pálida idéia de seu passivo, basta lembrar que a Rede Globo não chegaria onde chegou sem o beneplácito da ditadura, não bastasse isso, ainda produziu um presidente de videocracia, o globalizado maior, o “collorido” das Alagoas. Na mesma senda, a americanização do Brasil foi aprofundada, com tal ímpeto, que o pensamento único de mercado nem sequer permite aos contemporâneos vislumbrar o tamanho do dano causado à cultura nacional e até mesmo aos recursos naturais. Os brasileiros abandonaram a sua comprovada capacidade de se envolver e de se apaixonar pelo futuro de seu país: jogaram a toalha no chão e admitiram a sua derrota – não há possibilidade alguma de se pensar uma estratégia de desenvolvimento econômico e social que não seja mera cópia defasada do que os americanos apregoam. Traduzido em miúdos: não existe possibilidade de fazer o país desenvolver-se que não seja entregá-lo aos empresários nacionais e estrangeiros. E não há futuro para um país que não seja capaz de elaborar o curso de sua própria trajetória. Já o mercado, apoiou FHC e apóia o Lula. Nós estamos a ver a dívida ser paga. Não há mais nada, só o silêncio dos nossos sonhos abandonados. Não haveria vitória maior para a ditadura”.

Edição edição 16957




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