CIDADES
Sexta-feira, 27 de Julho de 2012, 21h:00
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TRABALHO ESCRAVO
Fiscais encontram mais de 100 em usina
Homens receberam proposta vantajosa, mas acabaram sem receber salários e alojados em ambientes insalubres
Stéfanie Medeiros
Da Reportagem
Vindos do Nordeste, todos saíram de suas cidades com a promessa de terem rendimentos superiores ao que receberiam caso trabalhassem onde moravam. Depois de gastar de R$ 300 a R$ 500 com o transporte e terem que ficar em cômodos improvisados nos depósitos das casas de outros moradores de Poconé (104 km de Cuiabá), os trabalhadores perceberam que a realidade que enfrentariam era bem diferente do que foi prometido. Longe de suas famílias, os novos funcionários da usina de álcool Alcopan enfrentavam uma jornada de trabalho de nove horas cortando cana. Eles recebiam da empresa apenas duas refeições diárias, que eram ingeridas embaixo de ônibus e em cabanas improvisadas com a palha da cana. Mesmo cumprindo a jornada de trabalho, alguns dos trabalhadores não recebiam salários há quatro meses. Também não foram reembolsados pelas passagens que tiveram que comprar pra chegar até a Alcopan e tinham que pagar aluguéis que variavam entre R$40 e R$80. No entanto, os cômodos onde viviam não possuíam banheiros com instalações hidráulicas. Os trabalhadores estavam suscetíveis a várias doenças pela falta dos elementos mais básicos para uma qualidade de vida mínima. Esse foi o cenário que os fiscais do Ministério Público do Trabalho encontraram na Alcopan. Segundo o procurador do Trabalho, Rafael Garcia Rodrigues, mais de 100 funcionários da empresa tiveram os direitos violados, sendo que vinte deles se encontravam em situação análoga ao trabalho escravo. De acordo com Rodrigues, esses vinte trabalhadores estavam sozinhos no Estado, tendo seus direito violados e vivendo em condições insalubres. Mas o maior desespero manifestado por todos eles foi por suas famílias, que também passavam dificuldades por não receberem a ajuda prometida, conta Rodrigues. A Alcopan já havia sido notificada em 2006 por irregularidade semelhante. Atualmente, a empresa se encontra em processo de recuperação judicial. Mas agora o Ministério Público vai pedir a decretação de falência da Alcopan. Está claro que a empresa não se compromete a modificar seu comportamento e se regularizar. O procurador ainda explica que o mais importante é que os trabalhadores recebam seus salários atrasados e sejam reembolsados e indenizados. Eles poderão retornar ao Estado de origem ou, para aqueles que desejem ficar em Mato Grosso, há possibilidade de participar de um programa para que sejam reinseridos no mercado de trabalho. Um estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT), publicado este mês, apontou Mato Grosso como o estado com a maior concentração de empregadores e empresas flagradas submetendo trabalhadores às condições de escravidão. Segundo Rodrigues, isso se deve a um misto de políticas de combate a escravidão, que registram esses infratores, e a existência de pessoas que ainda abusam da força de trabalho alheia, buscando o lucro fácil. De acordo com ele, o Plano Estadual de Erradicação do Trabalho Escravo pretende que até 2014 Mato Grosso esteja livre desse tipo de exploração. A reportagem entrou em contato com a empresa Alcopan, mas as ligações não foram atendidas.