CIDADES
Sábado, 30 de Outubro de 2010, 13h:09
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SHOPPING POPULAR
Estudo mostra melhora de vida de camelô
Em 15 anos de implantação do camelódromo no Porto, trabalhadores passaram a adquirir imóvel e veículos próprios além de cursar faculdade
Há quinze anos a figura do comerciante informal em Cuiabá não se resume apenas ao trabalhador sofrido, sujeito às intempéries da rua, sem a mínima estabilidade financeira e com baixas perspectivas. Um estudo da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), apresentado recentemente como tese de mestrado, colheu verdadeiros indicadores econômicos dos trabalhadores do Shopping Popular da Capital e constatou que, além de um grande centro de pechinchas, o local é um modelo promissor para abarcar mais comerciantes informais da cidade. A dinâmica socioespacial do comércio informal em Cuiabá e a implantação do Shopping Popular da mestranda de Geografia Elenir Motta Sanches Arruda, orientada pelo professor doutor Cornélio Silvano Vilarinho Neto, apontou que os comerciantes do camelódromo atualmente dispõem de casa própria (somente 16% pagam aluguel), a maioria deles tem carro ou moto (apenas 24% dependem do transporte coletivo) e é dona do próprio negócio, estão no auge do ciclo de vida produtivo e são espantosamente mais escolarizados (de menos de 2% com ensino médio para 50%). A pesquisadora já havia analisado o comércio informal em 1986, antes da implantação do Shopping Popular, que foi imposta pela prefeitura. Na comparação com 2009, revela-se um perfil de comerciante totalmente outro (ver quadro). A pesquisadora relata que, antes do Shopping Popular, a atividade do comércio informal em Cuiabá se concentrava em locais como praças, calçadões e ruas do Centro como em qualquer cidade (alguns exemplos perduram). A diferença foi que, em 1995, a prefeitura separou um terreno localizado na região do Porto para concentrar todos os ambulantes que antes atuavam no Centro da cidade. Propostas anteriores já haviam sido rechaçadas pelos trabalhadores, temerosos em perder o fluxo de pessoas que já tinham e enxergando tudo como uma proibição velada de sua atividade, uma limpeza na cidade. À revelia deles, entretanto, o município implantou o Shopping Popular e impôs, segundo Elenir, pelo menos quatro anos de uma rotina cruel para 500 comerciantes: praticamente não havia clientes, o trabalho era a céu aberto e sol a pino, sob o risco de que uma chuva transbordasse as lonas que protegiam as bancas e com medo dos alagamentos do córrego da Prainha. Muitos desistiram e voltaram para as ruas ou alugaram espaços no Centro, que se transformaram depois em galerias. Os que ficaram se organizaram numa associação e foram em busca de mais estrutura, como banheiros, estacionamento, cobertura para o prédio e climatização não o conforto dos shopping centers convencionais, mas com menores preços para produtos de mesma qualidade, aponta Elenir, mesmo com as dificuldades inerentes à informalidade (ver matéria). EXPERIÊNCIAS - São famílias como a da comerciante Elaine Freire, 35, que têm se beneficiado disso tudo e se encaixam no perfil resumido nos números da pesquisa acadêmica. Elaine, que antes vendia brinquedos na rua com o marido e passou pelas primeiras dificuldades quando o camelódromo mal tinha estrutura, hoje está formada (é advogada), tem carro e é dona da casa onde mora no Pedregal. Ela e o marido tiram do camelô toda a renda para a casa e os três filhos dois deles estudam Direito, sendo que um, de 19, se casou recentemente com uma garota que conheceu no próprio Shopping Popular empreendimento que, para Elaine, foi o grande recomeço. Também veterana do camelódromo, a comerciante Lucidalva dos Santos Carvalho, 47, tira dali a renda para pagar inclusive a cara mensalidade de R$ 500 para o filho numa escola particular. Ela, que é dona de sua casa no residencial Santa Inês, sempre vendeu de tudo - de antenas de televisão a sutiã mas afirma que, hoje, vende mais do que vendia na rua. E os clientes, diz, são de classe média a alta. Lucidalva conta que, depois da estrutura conquistada no Shopping Popular, um dos poucos motivos para apreensão é a falta de informação a respeito do projeto Tempos Modernos, do Plano Diretor de Cuiabá, que deve concentrar ainda mais o comércio informal da cidade numa nova estrutura (ver matéria).