CIDADES
Sábado, 13 de Junho de 2009, 12h:59
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CASO UEMURA
Empresário se diz injustiçado pelo MP
Júlio Uemura falou ao Diário sobre as relações com os denunciados na Operação Gafanhoto e aposta que será inocentado ao final do processo
Acusado de liderar uma suposta organização criminosa desarticulada pelo Grupo de Atuação Especial e Combate ao Crime Organizado (Gaeco) durante a Operação Gafanhoto, no dia 4 de março, o empresário do ramo de hortifrutigranjeiros, Júlio Uemura, de 60 anos, afirma se sentir injustiçado diante das acusações e acredita que será inocentado ao final do processo. Em entrevista ao Diário, ele se defende e comenta seu relacionamento com os demais denunciados no processo, entre eles, o homem apontado como seu testa de ferro, o corretor Renê Santos Oliveira. Paulista radicado em Cuiabá, Uemura, afirma que o patrimônio erguido em 40 anos pela família Uemura é fruto de dedicação e trabalho de quatro décadas. O empresário fala sobre seu relacionamento com Walter Rabello e com o casal que denunciou o esquema, Claudiomiro e Maria Lucinéia Lima. O Ministério Público Estadual acusa Uemura de usar empresas laranjas comandadas por Renê em nome de terceiros, para fazer aquisição de hortifrutis de produtores rurais de outros estados e não pagar as compras, gerando prejuízos milionários às vítimas. Na denúncia, a suposta quadrilha contaria com um braço armado, formado por um grupo de policiais civis. No processo em instrução, já foram ouvidas vítimas da ação, entre elas o produtor paulista Shigueu Hayata, e a fase de interrogatórios de 28 réus ainda não foi concluída. DC - Como se deu a formação da empresa Comercial Uemura? UEMURA - A família Uemura veio em 1967 de Campo Grande para Cuiabá. Muito pobre. Meu pai trabalhou sempre com verdura. Viemos em cima de um caminhão pau de arara. Meu pai, minha mãe, eu e os irmãos. Sete irmãos, quatro mulheres e três homens. Todos crianças. Meu pai vendia verdura e nós irmãos trabalhávamos na feira. Em Cuiabá continuamos vendendo verdura nas feiras. Crescemos empurrando carrinho na feira por muito tempo. Viemos subindo, subindo, caímos um pouco e foi assim. DC - Como começou a construção da empresa? UEMURA - A empresa foi montada pelo meu pai e depois eu assumi, em 1973. Eu tinha 24 anos. Hoje só eu administro. Sempre administrei. Meus irmãos todos eles têm firmas individuais. Um trabalha com cereais, outra com verduras. Tenho cinco filhos, dois deles têm empresas e outros três são menores de idade. DC - Quem trabalha com a Comercial Uemura? UEMURA - A minha filha Gisselma tem a firma dela, a Transportadora Brito. Ela me ajudou a administrar a empresa nos 90 dias em que fiquei em prisão domiciliar e só. Ela tem a firma dela e temos serviços em conjunto. Meu filho (Benedito Uemura, conhecido como Pones) também tem a firma dele, mas em outro ramo, de agropecuária. DC - Como o senhor recebeu as acusações do Ministério Público? UEMURA - Nunca pensei que fosse investigado. Eu trabalho certo, nunca pensei que fosse acontecer alguma coisa dessa forma. Antigamente eu ia dormir uma hora da manhã e chegava às seis horas. Ainda é esse ritmo. Durmo menos de seis horas por noite. DC - O que o senhor faz na empresa? UEMURA - Compro e vendo verdura. Compro e vendo. DC - Compra de produtores rurais de Mato Grosso ou de fora? UEMURA - Só de fora do Estado. DC - Com quantos fornecedores a Comercial Uemura trabalha hoje? UEMURA - Uns 80 fornecedores DC - Como estimar o tamanho da empresa? UEMURA - Nosso faturamento é de cerca de R$ 400 mil por semana, entre R$ 1,2 e R$ 1,3 milhão por mês. Vendo para 60% das feiras. Um dos maiores fornecedores de Mato Grosso. Quem vende mais sou eu, mas tem espaço pra todo mundo no mercado. Vendo também para o interior, eles compram meu e carregam. DC - Fornece para grandes supermercados? UEMURA - Para o Atacadão, Comper ... Nem lembro. DC - Como é estabelecido o preço dos produtos? UEMURA - Quem comanda o preço é São Paulo. Porque nós compramos mercadoria e tudo depende da compra e da venda. Coloco as despesas e a margem do lucro e pronto. Não penso em concorrente. DC - Uma das acusações que pesa contra o senhor é de quebrar os concorrentes... UEMURA Imagina, se eu quebrar concorrente eu vou ter que montar uma firma só para isso. Concorrente quebra um, aparece outro. Não tem como fazer isso. Isso não existe. DC Por que acha que foi envolvido na denúncia do Ministério Público? UEMURA Eu, para ser franco, não consigo nem imaginar porque fui envolvido. Mas dizem na denúncia que foi por causa de conversas por telefone. O Renê (Renê Santos Oliveira) falava na denuncia de forma errada, coisa errada no telefone. Ele falava que só dizia coisas para me engrandecer. Para engrandecer uma pessoa ele deveria usar as palavras certas. O Renê trabalhava para a firma do Claudiomiro (Claudiomiro Lima), chamada Canadá. Ele era o homem da confiança do Miro. Era ele que fazia todos os negócios para a Canadá. E, de fato, eu mesmo comprei muita mercadoria dele. Eu comprava dele e ele comprou de mim também. E ainda tenho um dinheiro bom para receber dele (R$ 137 mil). Com a anuência do Miro e da mulher dele (Maria Lucinéia Lima), o Renê fechou o negócio com um fornecedor. Tinha um fornecedor que não pagaram. Eu também não tenho como saber se vai comprar uma mercadoria e não vai pagar. Você vai vender mercadoria para uma pessoa você não pergunta se ele vai pagar ou deixar de pagar. Ele, por exemplo, não me pagou. DC - O Renê é seu amigo? UEMURA - Meu amigo de relações comerciais. Eu comprei muito porque ele fazia negócios bons, mas não era nada milagroso, sempre algo que ficava bom. DC - O que é negócio bom? UEMURA - Negócio bom. Ele sabia comprar melhor. Uma região que ele conhecia, sabia de onde comprar. Não sei também com que produtores rurais ele comprava. DC - Ele comprava para o senhor? UEMURA - Ele comprava para a firma dele e vendia para mim, e tirava a parte dele. O Renê comprava para a firma do Miro, com a anuência dele e com o talão de cheques dele. Ele comprava para o Miro e a esposa dele, Néia. Então, os dois mandavam ele comprar e vender. DC - Quando o senhor conheceu o Renê? UEMURA - Há três anos. DC - O senhor deu boas referências de empresas para as quais o Renê trabalhava para que ele pudesse comprar a prazo de produtores de fora, como por exemplo, para o Shigeu Hayata? UEMURA - Nunca dei uma informação. Nunca mandei vender para nenhuma firma. Nunca falei vende para essa firma que é boa. A única indicação que eu dei foi da maçã, para a Canadá, porque eu falei que estava comprando a maçã para a Canadá e ele aproveitou a conversa e falou que estava vendendo uma batata para a Canadá. A firma é boa? É boa. Mas não tinha nada para falar para ele. Hoje eu tenho até uma ação contra ele. Contra o Miro, porque o Shigeu eu nunca conversei. Nunca falei que estava vendendo. Infelizmente o cara de fora que vende pra cá não fala pra gente, porque acha que a gente não vai comprar mais dele. Porque eu não compro do Shigeu também. Nós não compramos direto do lavrador. Eu mesmo nunca conversei com o Shigeu, só comprei dele algumas vezes. Conversei agora que ele veio cobrar. Até queria ajudar ele. DC - O senhor não conversou com ele para intermediar o negócio com a Sewal? UEMURA - Se eu tivesse feito um negócio desses, teria prazer em pagar. E quem faz esse serviço é malandro. DC - E quando ele veio cobrar o senhor não teria se comprometido a pagar? UEMURA - Deus me livre. Nem dei liberdade para ele falar algo sobre isso. Ele só me pediu uma força para ajudar a receber. Liguei para o Miro e o Renê e falaram que iam pagar. DC - O senhor chegou de vender para essas empresas citadas pelo MP como as laranjas que aplicavam os golpes? UEMURA - Para a Tradexco vendi pouco, mas para as outras, Sewal e Canadá, vendi muito. DC - Foi vítima de calote? UEMURA - Nunca tive nenhum tipo de problema, recebi sim. Só levei um calote da Canadá. Eu até estou movendo uma ação judicial contra eles. Eles me devem R$ 137 mil, que é a empresa do Miro. DC Por que o senhor acha que o Shigeu envolveria o senhor? UEMURA - Ele não falou que eu dei referências. Foi bem claro. Um corretor deu a informação que a Sewal era boa. Eu mesmo nunca conversei com Shigueu. Liguei para o Moreno, que compra a mercadoria minha e questionei: Já falei alguma vez para você que a Sewal era boa? O senhor nunca me falou! Ele vai declarar isso por carta precatória. Nem sei de onde apareceu isso. Se ele falasse comigo ou com meu corretor, o Carlos Eloy, que chamo de Moreno, eu acredito que o corretor falaria. DC - O senhor acha que foi vítima de uma armação? UEMURA - Uma armação pra cima de mim não. O Miro comprou e pagou a maior parte. Não acho que ele usou de má fé. Procuraram informações e não acharam que eu devia um centavo para ninguém. DC - Quais as perspectivas diante do processo? UEMURA - A pessoa que denuncia veio já falido do outro estado. Maior soltador de cheque sem fundos. Uma pessoa que falou que eu mandei matar tal fulano, que eu mandei matar o outro. Apareceu um vivo e o outro morreu do coração. Aí, a verdade veio à tona e viram que não fiz nada. Ficou me devendo R$ 137 mil. Cortei para não vender mais. O Miro falou que queria fazer uma proposta pra mim. Aí, ele falou que tinha um barracão, que eu nunca vi. Ele queria penhorar o barracão para mim, e eu daria crédito outra vez. Falei que estava feito o negócio. Primeiro, eu gosto dele. Segundo, ele é um bom vendedor. Vieram com os documentos e trouxeram para mim. Aí, depois, ele passou o barracão para o nome do filho dele menor de idade. Eu estava usando de boa fé e ele querendo dar dois golpes em mim. Aí, parei de vender para ele e propus uma ação na Justiça. Ele inventou que eu taquei fogo no barracão para ameaçá-lo, mas como eu ia tacar fogo em um negócio que está na Justiça e pode ser meu? DC - O senhor acha que vai ser inocentado ao final do processo? UEMURA - Tenho tudo para ser. O que eu tenho a ver com isso, se eu comprei e eu paguei? Eu acho que não tem nada para me pegar. Como você vai saber se a pessoa não vai pagar. Eu sempre evito negociar direto com o lavrador, que reclama muito e não dá dinheiro. Por isso a gente sempre põe o corretor para trabalhar. Ele sabe achar o mercado certo. Não puxa nem para um lado, nem para o outro. E como é que você vai crescer prejudicando os outros? Não dá, e eu tenho sempre isso comigo. É por isso que eu me considero uma pessoa bem-sucedida. DC - Qual o relacionamento que o senhor mantinha com os policiais denunciados como o braço armado da suposta organização criminosa? UEMURA - O Chicão (Francisco Lourenço) vinha pegar verdura estragada para dar para pessoas pobres. Ele é gente boa. Nunca ouvi falar nada demais dele. Era boa pessoa. Não mantinha contato, muito difícil. Quando ele vinha, eu não estava aqui. Só via a conversa, era oi e tudo bem. Vinha só pegar a verdura estragada para levar para o povo. Tinha muita verdura que dava para aproveitar. Já o Poconé (Onésimo Martins de Campos) eu não conheço. O Berimbau (Ailton Oliveira) fazia cobrança, mas nunca usou de força. Não andava nem armado. DC - O senhor mantém contato com ex-deputado Walter Rabello? UEMURA - Quase não tenho mais. Conheço ele. Sempre fui amigo dele. Ele não frequentava minha casa. Ele era deputado, não era de frequentador não. Cada um no seu lugar. O que eu mantinha com ele era ajuda de cadeira de rodas para dar para outras pessoas no programa de televisão, o que eu acho que é uma boa coisa. Se ele falar comigo amanhã, eu dou outra vez. DC - Ele teria feito propostas para o senhor em alguns telefonemas... UEMURA - Quem vai acreditar nesse tipo de conversa. Eu vou ganhar a prefeitura. O senhor vai mandar na cidade. Isso é conversa de político. Não tenho capacidade nem de mandar direito na minha firma, que dirá mandar na cidade. DC - Com o secretário Éder Moraes o senhor mantinha algum contato? UEMURA - Não tenho. Só vejo falar bem dele, que está indo bem. DC - O senhor conversou com o Walter Rabello, acusado de tráfico de influência, para liberação de cargas nos postos fiscais? UEMURA - Falei para ele que tinha um fiscal que estava me perseguindo. O fiscal parou um caminhão carregado de tomate e com caixas de uva. Ele quis pesar a uva. Deu 8,40 quilos. Na nota estavam só os oito quilos. Falei que não ia pagar as 40 gramas porque era o peso da caixa. Compro a uva e coloco na caixa. Aí o fiscal invocou comigo. Aí falei com Walter: esse fiscal me persegue demais. O funcionário público parou o caminhão das 10 da noite até as 8 horas da manhã. Aí liguei para o Walter e ele ligou para o secretário. Ligou, mas o caminhão foi solto no outro dia também. DC - Houve alguma mudança nas relações comerciais depois da Operação Gafanhoto? UEMURA - Não, no comércio não. O que teve mudança é na vida, como por exemplo, meus netos quando vão a escola sofrem com os coleguinhas por coisas que não são verdade. Eu quero que apareça uma pessoa que possa desabonar minha conduta, uma única pessoa. O Miro afirmou que passava folhas em branco de cheques para mim para pagar essas compras que não foram pagas. O que não é fato. Se esses cheques existissem eu teria passado para alguém. Se tiver alguém com um desses cheques que eu tenha repassado que essa pessoa apareça. DC - O Edson foi alvo das mesmas denuncias há 10 anos? UEMURA - Ele foi absolvido. Não, o processo está em tramitação. Nem sei não acompanho. O Edson é meu irmão, mas nem soma com a paçoca. Eu o ajudo, mas conversar com ele mesmo, não converso. Nem sei o que ele faz mais. Ele mexia com verduras, mas nunca trabalhou comigo. DC - O senhor se sente injustiçado diante das acusações? UEMURA - Eu me sinto injustiçado, vamos ver o que a Justiça vai decidir. Ainda não tenho nem data para ser interrogado. DC - Tem conhecimento que o MP pediu sua prisão novamente? UEMURA - Ouvi falar. Vamos ver né.