CIDADES
Terça-feira, 29 de Março de 2016, 20h:39
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VIOLÊNCIA DOMÉSTICA
Empresário não é enquadrado em lei
Agressor da médica Camila Tagriali Campos não foi enquadrado na Lei Maria da Penha: foi autuado e depois liberado
YURI RAMIRES
Da Reportagem
A agressão sofrida pela médica Camila Tagriali Campos, 29 anos, gerou diversas reações nas redes sociais em um período que vem sendo marcado por manifestações contrárias à violência contra a mulher e igualdade de gênero. Chamou atenção ainda o caso ter sido registrado na alta sociedade cuiabana e a soltura do marido agressor, que não foi enquadrado na Lei Maria da Penha. A defensora pública e presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Mulher, Rosana Leite Antunes de Barros, conversou ontem com o DIÁRIO e alertou para o fato de que a violência contra a mulher está inserida em todas as classes sociais. Desta vez, o episódio atingiu a alta sociedade e isso reforça que a violência doméstica não tem classe, raça, crença. Qualquer pessoa está sujeita a sofrer esse tipo de agressão, seja física ou psicológica, destacou. Apesar de não conhecer o teor do processo em âmbito judicial, a defensora afirmou que está acompanhando o caso pela mídia e que o momento é de reforçar e ampliar discussões e promover mudanças no enfrentamento de casos de violência doméstica. A mulher sonha com o relacionamento, com o príncipe encantado que não existe e essa idealização romântica impede que ela enxergue defeitos e atos de abuso por parte dos homens, que acabam acarretando em casos graves de agressão, não reagindo aos abusos, disse. Camila foi agredida pelo marido dentro da área do condomínio onde o casal mora, em um bairro nobre da cidade. O fato aconteceu na madrugada de domingo (27), após a comemoração do aniversário do marido dela, o empresário Marcos César Martins Campos, 34 anos. Consta no Boletim de Ocorrência que o marido se descontrolou durante uma discussão dentro do carro, e começou agredi-la com socos, tapas e puxões de cabelo. Tudo isso na frente da filha de Camila, uma menor de 11 anos. Já no prédio, ela voltou a ser alvo de agressões. O resultado disso foi uma fratura no nariz e perfuração do tímpano, consequência dos socos e tapas. A polícia só foi acionada com a ajuda do porteiro do prédio e de uma vizinha. Quando a polícia chegou, foi necessário arrombar a porta do apartamento, já que Marcos havia trancado. Ele foi preso em flagrante por lesão corporal, mas solto após uma audiência de custódia. O empresário usará uma tornozeleira eletrônica e diante de uma medida cautelar, deve manter 500 metros de distância de Camila. Reforçando ao fato de não conhecer o processo judicial, Rosana destacou que o caso é grave, e diante de seu conhecimento em outros casos, o agressor foi preso. Foi um ato violento, grave. Ela sofreu lesão no rosto e no ouvido, que pode comprometer sua audição. Se até os casos leves já resultam em danos graves, imagina nesse caso. Ela diz não entender o motivo do agressor ter sido preso e destacou que deveria ter sido questionada pelo juiz, qual foi à intenção do agressor naquele momento. As promotoras que atuam no Núcleo de Enfrentamento à Violência Doméstica do Ministério Público Estadual (MPE) também se mostraram contrárias à liberdade do agressor e encaminharam ao Tribunal de Justiça um documento expondo a deficiência de aplicar audiência de custódia em atos graves de violência doméstica e perfil dos agressores. Audiência de Custódia nada mais é que a garantia da apresentação do preso em flagrante, em até 24 horas, a um juiz. Nelas, o pedido de prisão é analisado dentro da necessidade, adequação da continuidade ou liberdade e outras medidas cautelares. A reportagem procurou os advogados de Camila e de Marcos, mas ambos não atenderam às ligações. Nos escritórios em que ambos atuam, o DIÁRIO foi informado de que estavam em reunião.