CIDADES
Quarta-feira, 01 de Fevereiro de 2012, 21h:05
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VELHICE
Ditadura da juventude
Idosos enfrentam a hostilidade no trânsito, a falta de opção de lazer e a falta de educação em todos os lugares
RODIVALDO RIBEIRO
Da Reportagem
Além de ter que lidar diariamente com as limitações físicas impostas pela idade, os mais velhos são obrigados a enfrentar também uma miríade de hostilidade quando o assunto é lazer, convívio social ou mesmo um simples passeio. Há desrespeito de todo tipo: falta de local pra estacionar, inacessibilidade nas vias públicas, impaciência dos motoristas mais jovens (para os que têm carro), e dos demais usuários do transporte coletivo, que ficam irritados com a lentidão característica da idade avançada. Dados do Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Idosa denotam que os habitantes com idade acima dos 60 anos representam 7,8% da população mato-grossense, ou seja, são 221.560 idosos entre os mais de três milhões de habitantes detectados pelo IBGE no Censo 2010. Somos, portanto, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma sociedade de velhos, pois teria que haver um percentual acima de 10% de pessoas com idade até 24 anos para que fôssemos considerados jovens - e hoje esse percentual mal chega aos 6,5%. Mas não é o que se vê em teatros, cinemas, shows ou bares e restaurantes: nesses locais é visível a ditadura da juventude, com suas urgências e exigências. Aos mais velhos sobra a aposentadoria insuficiente para pagar até mesmo os remédios de que acabamos precisando. Lazer? Só se for pescar nos rios poluídos do perímetro urbano, e ainda correndo o risco de cortar o pé em caco de vidro ou pedaço de lata enferrujada na margem, diz, entre o bom humor e a amargura, o senhor Antonio Fontes, 65 anos. A culpa, além da falta de educação da nossa ocidental cultura, que insiste em ver velhos como transtorno, também é dos gestores públicos. Mato Grosso não possui política organizada e preparada para tratar das questões ligadas à realidade do idoso, afirma a presidente da Federação dos Aposentados e Pensionistas e Idosos de Mato Grosso (Fedapi-MT), Adelfina de Souza, 63 anos. O Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa trabalha de maneira limitada, continua ela, independente da boa vontade dos conselheiros. O que se observa é que em Mato Grosso existem várias organizações governamentais e não governamentais de representação do idoso fazendo suas ações de forma isolada e como podem, conforme o próprio limite financeiro e de pessoas qualificadas para o trabalho com idosos. Decisão mal tomada também do ponto de vista econômico, pois nem só de pobres é feita a terceira idade. No livro Novos Velhos, a jornalista Léa Maria Reis revela que os idosos brasileiros estão mais ativos, produtivos e ajudam a movimentar a economia do País. A mesma conclusão é apontada em estudo com essa faixa etária realizado pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA), apontando um aumento de consumo por parte desse nicho de mais de 7,5% nos últimos quatro anos. Dinheiro que, infelizmente, ainda não compra respeito. Que o diga Lorivaldo Rocha, 64 anos, vendedor ambulante. Opção de lazer? Não tem nenhuma não, meu filho. Está certo que eu não tenho muito tempo, mas às vezes dá vontade de fazer alguma coisa e minha mulher, que tem 62 anos, até me cobrava isso. Mas ela também sabe que quando tentamos, sempre é estressante, porque há a impaciência dos motoristas mais jovens, buzinando e xingando. Tem também os guardadores de faixa verde durante a semana e flanelinhas, que sempre querem que a gente pague pra eles pra estacionar na rua. No fim, é mais seguro ficar em casa.