Muito mais do que uma busca por terras, a demanda pela bacia do rio Preto busca corrigir de uma falha grave cometida durante o processo de demarcação das atuais terras da etnia enawenê nawê. A opinião é do antropólogo Gilton Mendes Santos, um estudioso da cultura e da história da etnia. Ali está a origem dos clãs e grupos enawenê. É como se fosse Israel para os judeus. Ali podem ser encontrados vários sinais de aldeias antigas. Então não se trata de simplesmente estender o território, mas de assegurar uma área de imensa importância para a etnia, avalia. Santos acompanhou de perto o processo de formação e dissolução do grupo técnico criado pela Funai para tratar do tema. Fui selecionado para compor o grupo técnico. Repentinamente, contudo, a Funai interrompeu o trabalho. E sem muitas explicações, além da tradicional falta de recursos. Segundo ele, a história da luta pela manutenção do território do rio Preto remonta a períodos anteriores à chegada do homem branco. Havia uma disputa territorial com os rikbatsa e cinta-larga, o que muitas vezes os obrigava a buscar outros territórios e a se dividir em pequenos grupos. A chegada de frentes seringueiras, na década de 1950, potencializou o processo de expulsão. Multiplicaram-se os ataques, as mortes e a etnia se viu obrigada a se deslocar até a região do rio Iquê. Infelizmente, no momento da demarcação, essas terras tradicionais ficaram de fora, abrindo o caminho para a devastação. Para o antropólogo, o atual ritmo de desmatamentos e outras intervenções tem o objetivo expresso de descaracterizar ao máximo a área do rio Preto, dificultando futuras tentativas de demarcação. É preciso resolver este impasse o quanto antes. Os enawenê são argonautas e precisam daquela região para sobreviver, física e culturalmente. (RV)