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Cuiabá MT, Sexta-feira, 12 de Junho de 2026

CIDADES
Sábado, 25 de Agosto de 2012, 13h:04

VIDA REAL

Conte sua história por R$1

Equipe ficou uma tarde nas praças em busca de pessoas interessadas em doar um pouco de si e ganhar em troca uma moeda

STÉFANIE MEDEIROS
Da Reportagem
As praças Ipiranga, da República e Alencastro foram palco de uma negociação inusitada. A proposta era “Conte sua história e ganhe um real”. A equipe do Diário reservou uma tarde para fazer o trabalho e convocar os interessados. Eu (Stéfanie Medeiros) e o fotógrafo Guilherme Silveira seguramos uma placa informando o que queríamos comprar e quanto iríamos pagar. Em menos de quatro horas, mais de 10 pessoas apareceram e cada uma tinha uma motivação para participar do projeto. O “Conte a sua história e ganhe um real” atraiu vários olhares curiosos e muitas risadas tímidas. A maioria das pessoas que passaram olhou a placa e riu, mas continuava seu caminho, acanhada demais para desabafar com estranhos. Também causou incômodo em alguns “hippies” a câmara fotográfica e a placa anunciando a compra de uma história. Eles consideram motivo de ofensa, pois o grupo teve uma conversa e decidiu que o projeto “não contemplava todas as culturas” e era de certa forma uma invasão. Outros vieram sem hesitar, ansiosos para ganhar o um real e ainda compartilhar um pedacinho de suas vidas. Mesmo quando alguém não queria falar, por qualquer motivo, sempre indicavam algum amigo, falando que “ele sim tem coisa para te contar”. No geral, por maior que tenha sido a curiosidade de alguns, eles apenas perguntavam do que se tratava e sorriam elogiando a ideia. Um fato marcante, entre todos os que se decidiram por falar, é que metade não quis aceitar a moeda. As pessoas queriam simplesmente contar algum evento pelo qual passaram, e entre risadas, lágrimas ou expressões de inconformidade, ter alguém que realmente iria ouvir com atenção. Eventos curiosos, engraçados, muitas vezes chocantes, mas todos dignos de serem recontados, foram adquiridos durante uma tarde de “compra”. As narrativas vão do primeiro beijo de um estudante de 17 anos ao caso de uma mulher ciumenta, que colocou o “seu homem” na cadeia porque ele dormiu com meninas adolescentes. O primeiro que se sentou ao nosso lado e se dispôs a falar foi Laion Bruno, de 17 anos. Com a naturalidade de quem desde muito cedo já “viu de tudo”, ele conta que até duas semanas atrás, vivia de assaltos e tráfico de drogas. Foi após conhecer um senhor na praça que ele passou a vender meias e, hoje, tenta mudar de vida. Anotei muitas denúncias, mesmo quando o autor não queria ser identificado. A que causou maior revolta entre os que pararam ao lado para também escutar uma boa narrativa foi a de uma mulher esfaqueada pelo ex-marido. Quem contou o caso foi o atual companheiro dela, que se indignou por nada ter acontecido com o acusado. Ele também não quis a moeda. Alguns queriam contar algum evento interessante pelo qual passaram, mas estavam muito apressados e disseram que a história era “longa demais”. Para não perderem a oportunidade, passaram o telefone e pediram para voltarmos novamente, porque o que eles tinham a passar “valia a pena ouvir”. A tarde na praça abriu espaço para a discussão sobre qual o valor de uma história. Para alguns, o valor era o necessário para interar a passagem do ônibus. Outras usaram as moedinhas para o refrigerante da tarde. Muitos falaram que um real era pouco. Vários queriam apenas um ouvinte atencioso. Como infelizmente não é possível publicar todas elas aqui, três foram escolhidas para que o leitor se torne parte da vida dessas pessoas, que até ontem eram anônimas. #LINK#416249#José Burdelake #LINK#416250#Siberino Santino Calixto #LINK#416251#Reginaldo Bonifácio da Silva

Edição EDIÇÃO 16961




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