CIDADES
Sábado, 16 de Agosto de 2008, 15h:09
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INFÂNCIA
Conselheiro vive ameaçado
Responsável por um dos conselhos tutelares de Cuiabá, Delvi quer deixar cargo depois de sofrer espancamento
ALECY ALVES
Da Reportagem
Quase seis meses antes de terminar seu mandato como conselheiro tutelar em Cuiabá, o farmacêutico Delvi Lins, 37 anos, planeja abandonar o cargo depois de sofrer uma ameaça de morte e ser seqüestrado, espancado e abandonado no mato por bandidos. Traumatizado com o seqüestro, Delvi diz que não se sente seguro para continuar se expondo ao perigo para atender ocorrências mais complexas que exija, por exemplo, a aplicação de medidas protetivas, como a retirada de crianças do poder de pais que as maltratam, exploram sexualmente ou as mantém em ambientes junto de traficantes e usuários de drogas. Delvi Lins diz que somente voltaria atrás em sua decisão (quer deixar o cargo em outubro), segundo ele, se algumas mudanças no sistema de atendimento forem adotadas. Inverter o modelo atual, fazendo com que a polícia chegue primeiro ao local do chamado e só depois o conselheiro, é uma das sugestões dele. Ele conta que, em dezembro de 2007, quando estava retornando para casa, dois homens o encapuzaram e o jogaram em um carro dirigido por uma mulher e o levaram para estrada do Distrito da Guia. Depois de agredido com chutes, socos e ameaçado de morte, ele conseguiu se esconder até que os seqüestradores fossem embora. Foram quase quatro horas de terror, incluindo uma caminhada pelo mato, até que conseguisse socorro. Sob tratamento com antidepressivos, Delvi diz que ainda revive essa situação de pânico. Ele não sabe as causas do seqüestro, mas está certo que se relaciona à atividade de conselheiro, pois, na época, atendia ocorrência de tráfico e exploração sexual envolvendo crianças. Não vi o rosto deles, mas o tempo todo diziam que estava passando por aquilo porque me comportava com muito poder, queria ser delegado, reforça ele. Delvi diz que não deixou o cargo logo após o episódio porque precisava se organizar financeiramente para atender os dois filhos que moram com ele. O presidente do Conselho Municipal de Defesa do Direito da Criança e do Adolescente (CMDCA), Aurélio Augusto, informa que a entidade reconhece os riscos que os conselheiros correm, mas acha que abandonar o cargo, como quer Delvi Lins, não soluciona o problema. Aurélio observa que recentemente, há menos de um mês, essa questão foi levantada durante a reunião que discutia o projeto Educação com Saúde, que o município está implantando na escola. Como ele prevê o acompanhamento da vida da criança em família, incluindo a questão da segurança dentro e fora do lar, veio à tona o risco que está exposto quem fará esse monitoramento. A partir desse debate, diz ele, surgiu a idéia de incluir o tema na próxima reunião do CMDA, semana que vem, convidando para participar dela professores, educadores, conselheiros tutelares, gestores de ONGs que trabalham com crianças e representante das polícias, em especial da Delegacia de Defesa da Criança e do Adolescente (Dedica). Para Aurélio Augusto, não há necessidade de criar ou propor mudança na legislação estabelecendo novas regras. O presidente acredita que adequações instituídas através de resolução do CMDA poderiam amenizar esse sentimento de insegurança que, conforme ele, é compartilhado por muitos conselheiros e servidores de outras unidades, cujos serviços oferecidos os colocam frente a frente com aqueles que desrespeitam os direitos de crianças e adolescente. O coordenador dos Conselhos Tutelares, Edinaldo Gomes de Souza, acha que a solução é mais simples. Para ele, bastaria acionar a polícia para chegar junto no local da ocorrência. Também diz que na maioria das vezes é necessário que o conselheiro se exponha visitando a família para fazer o estudo da situação antes de adotar as medidas de proteção à criança. O risco continuará existindo, todos nós sabíamos disso, completa.