CIDADES
Domingo, 21 de Fevereiro de 2010, 01h:31
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SEGUNDA GUERRA
Combatentes cuiabanos são homenageados por atuar em Monte Castelo
Próximos dos 90 anos de idade, pracinhas da Capital contaram experiência vivida há 65 anos em território inóspito a serviço do país
ALECY ALVES
Da Reportagem
Ainda hoje, 65 anos depois, poderia parecer absurdo ou loucura a possibilidade de cidadãos comuns deixarem suas famílias e uma cidade com 40° C, como Cuiabá, para lutar contra as tropas nazistas em regiões inóspitas com temperaturas de até 20° C negativos. Pois é. Para quem não sabe, um grupo de pouco mais de 100 cuiabanos de chapa e cruz (não se sabe o número exato), integrou as tropas aliadas na Batalha de Monte Castelo, na Itália, contra a invasão dos nazistas comandadas por Adolf Hitler. Foi no final da Segunda Guerra Mundial, entre novembro de 1944 e fevereiro de 1945. Operando um canhão anti-tanque, lá estava seo Feliciano Moreira da Costa, na época com 22 anos. Agora, aos 87 anos, ele carrega com orgulho o título de expedicionário e estampa medalhas no peito. Esta semana, cheio de disposição e bom humor, Costa se reuniu com colegas pracinhas como Gabriel de Sousa Guimarães, 89 anos, e Ismael Costa Neves, 88 anos, para comemorar as seis décadas e meia da tomada de Monte Castelo. A celebração para os heróis cuiabanos aconteceu por iniciativa do general de Brigada José Júlio Dias Barreto, comandante da 13ª Brigada de Infantaria Motorizada, na sede da instituição, na avenida Rubens de Mendonça (do CPA), em meio a abraços, bate-papo, exibição de vídeos e de medalhas. Em casa, onde se reuniu com familiares poucos antes da solenidade, Costa relembrou momentos de terror da guerra contra as armas, o frio de congelar e a felicidade de voltar para sua terra. Ele contou que jamais, morando em Cuiabá, terra praticamente esquecida e isolada do país, pensava que participaria de uma guerra. Entretanto, quando foi convocado não pensou em resistir, mesmo tendo servido ao Exército três anos antes pensando, como revelou, em cumprir essa obrigação cívica apenas para ficar livre logo desse compromisso e tocar sua vida. Com uma memória privilegiada, Feliciano Costa recorda que saiu de Cuiabá, junto com outros soldados, no mês de maio de 1944 em um caminhão com destino a Campo Grande, hoje capital do Mato Grosso do Sul. Demoraram três dias para chegar ao primeiro destino, de onde seguiram para Caçapava (SP) e, depois para o Rio de Janeiro. Na capital carioca embarcaram num gigantesco navio americano com mais de 5 mil homens rumo à cidade italiana Nápoles. A partir daí, em um trem velho, usado para o transporte de soldados, perfurado de balas, chegaram a Bagnoli. Na hora em que entramos no trem logo pensei: estamos mortos, recordou, agora com bom humor. No campo de guerra, perdeu o soldado que municiava o seu canhão anti-tanque. No meio da escuridão, sob nevasca e rajadas de tiros e canhões, nem ao menos percebeu quando o companheiro foi atingido. Acho que ele levou uma rajada de metralhadora, completou. Além da guerra maior para evitar a invasão dos nazistas, Costa disse que enfrentou outras duas batalhas. A primeira foi o medo de navegar numa embarcação com tantos passageiros e tão grande que tinha até campo de futebol, especialmente pelo fato de jamais ter pensado que conheceria o mar. O rio maior que eu conhecia era o Cuiabá, brincou. Na outra guerra, disse, tinha a neve e o frio como inimigos. Nas montanhas, contou, caminhavam sob camadas de gelo de até um metro de altura. Vi homens abatidos pela guerra e pelo frio, contou, dizendo que até no dia de Natal estavam em combate. Da guerra, disse, lamenta a perda de amigos e o não reconhecimento da contribuição que deram à pátria arriscando a própria vida.