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CIDADES
Sábado, 07 de Fevereiro de 2009, 15h:02

TRABALHO ESCRAVO

Caso mais grave de escravidão em Mato Grosso está impune

Os repórteres Keity Roma e José Medeiros percorreram os 690 km até Peixoto de Azevedo, onde o temor marca histórias de vida e inferno de lavradores, sob o açoite e revolver de um fazendeiro e seus capangas; episódio é o mais assustador já visto em MT

KEITY ROMA
Enviada a Peixoto de Azevedo
“Chapéu Preto”, como é conhecido o fazendeiro Sebastião Neves de Almeida, é uma figura quase lendária na região de Peixoto de Azevedo, no norte de Mato Grosso. Não há ali quem não conheça a truculência que envolve sua fama, comentada com receio pelos que o temem. Quem o vê circulando livremente por suas fazendas em Mato Grosso e no Pará não imagina que recai sobre o pecuarista a acusação de escravizar e até acorrentar seus funcionários. O caso de trabalho escravo é o mais grave já registrado no Estado. A reportagem do Diário percorreu 690 quilômetros até Peixoto de Azevedo em busca das vítimas do caso. Lá, quem ouve os relatos das agressões imputadas ao fazendeiro ou aos homens considerados seus capangas da Fazenda Cinco Estrelas chega a pensar que o caso é de mais de um século, quando a Lei Áurea era só um sonho. A sensação de impunidade se arrasta sob a sombra do medo. O flagrante que embasou a denúncia do Ministério Público Federal (MPF) contra o fazendeiro data de abril de 2003. Desde então, Chapéu Preto responde a processo na Justiça Federal, mas apesar da ação penal tramitar há quase seis anos nunca houve sentença. Enquanto o processo se arrasta anos a fio, o fazendeiro goza da riqueza obtida na região. O pecuarista, a esposa Raimunda Abreu Maciel, o ‘gato’ Luiz Carlos Machado, conhecido como “Luiz Bang”, e outras duas pessoas são apontados pelo MPE como responsáveis por crimes de redução à condição análoga à escravidão, lesão corporal, formação de quadrilha, aliciamento de trabalhadores, frustração de direito assegurado por lei do trabalho e exposição da vida e saúde de pessoas a perigo, entre outras infrações trabalhistas. “Esse foi o caso mais emblemático e grave de trabalho escravo clássico já descoberto em Mato Grosso. ‘Chapéu Preto’ é o mais famoso por agir da mesma forma por muitos anos e executar o mesmo processo de arregimentação, envolvendo um feixe de crimes, que andam na parte trabalhista, mas que na esfera penal ainda ficam impunes”, afirma o superintendente da Delegacia Regional do Trabalho (DRT), Valdiney Arruda. Na época, ele participou da ação de fiscalização na fazenda. É a impunidade que leva cidadãos como o lavrador Sebastião Pereira da Silva, de 41 anos, e a freira Leonora Bruneto a viverem sob a sombra do medo. O maranhense Sebastião, conhecido na região pelo apelido de “Nego Faca”, diz sentir dores até hoje por conta das pauladas que levou do ex-patrão. Ele convive com as lembranças de humilhações ainda maiores sofridas por companheiros. Foi no dia 3 de abril de 2003 que Sebastião perdeu sua liberdade, só retomada com a ação da DRT um mês depois. Animado por arrumar para si e para o afilhado um emprego para roçar o pasto da Cinco Estrelas por R$ 600 ao mês, ele não sabia que começaria ali o que considera o pior momento de sua vida, ao aceitar o emprego ofertado por “Luiz Bang”. Na manhã em que o caminhão passou pela avenida principal de Peixoto de Azevedo, pegando os trabalhadores da cidade e os que chegavam até lá atraídos por um anúncio numa rádio FM do Maranhão, começavam 30 dias de martírio para Sebastião. O salário prometido de R$ 600 por mês caiu para R$ 130, que, ao invés de saldo, gerava dívidas. Mas a grande surpresa não foi essa. “Fomos enganados. Quando chegamos à fazenda e vimos que o trabalho era para o Chapéu Preto, já não tinha como voltar atrás. Tivemos que ficar, apesar de saber da fama dele”, conta. Dormindo em barracões de lona em meio à mata fechada, sem proteção para chuvas e banheiro, comprando comida e ferramentas a preços superfaturados do proprietário e ainda trabalhando exaustivamente por 13 horas ao dia, os trabalhadores, cerca de 160, começaram a pedir para abandonar o emprego. Chapéu Preto não aceitou, de acordo com os depoimentos registrados no processo judicial, e lançou a ameaça: ”Se alguém sair, eu passo fogo”. Os que tentaram fugir foram encontrados e espancados na frente dos demais, para servir de ‘exemplo’, de acordo com a denúncia do Ministério Público. Foi o caso de Raimundo Almeida, o “Brabinho”. “O Brabinho apanhava demais. Fui ajudá-lo, mas a Raimunda (esposa do fazendeiro) estava armada enquanto o Chapéu batia. Acabei levando pauladas também”, relembra Sebastião. Depois das sessões de espancamento, o patrão ordenava o retorno ao trabalho de roçar o pasto, sob forte vigilância. Não perdoava nem os doentes e idosos. “Tinha um homem bem velhinho com catapora, que levou tapas na cara porque não aguentava trabalhar. Não pude fazer nada por ele”, lamenta Leia também #LINK#338925#Defesa sustenta tese de armação #LINK#338926#Artimanhas se renovam no crime #LINK#338927#Medo impunha vigílias sob lona #LINK#338928#Sociedade precisa denunciar e exercer pressão política #LINK#338929#Corrente servia para evitar fuga #LINK#338930#‘Protetora’ é alvo de atentados

Edição EDIÇÃO 16962




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