NA HORA
O jornal de Mato Grosso Facebook Facebook twitter youtube

Cuiabá MT, Sexta-feira, 12 de Junho de 2026

CIDADES
Segunda-feira, 20 de Agosto de 2007, 21h:16

RETRATO DA VIDA

Alunos de Cuiabá habituados com violência

Em desenhos, crianças da educação básica de 2 escolas da Capital contrastam cenas chocantes de seu cotidiano com as que realmente gostariam de vivenciar

ALECY ALVES
Da Reportagem
A violência vivenciada em bairros pobres de Cuiabá - no cotidiano das ruas e dentro da própria casa - já domina parte do imaginário das crianças que vivem nestes locais. Em trabalhos escolares, como desenhos e textos, bem como no relacionamento dentro e fora da sala de aula, as crianças demonstram uma incômoda familiaridade com cenas chocantes, como assassinatos, roubos e espancamento. Nesta semana a reportagem do Diário pesquisou trabalhos escolares de crianças de duas unidades públicas de Cuiabá, submetendo-os à avaliação de professores e de uma psicóloga. As “tarefas”, além das entrevistas com os garotos, revelam uma mistura de preocupação, dor e falta de perspectiva de vida entre eles. A violência está internalizada em crianças de diferentes faixas etárias. Na Escola Municipal Acelina Fialho Bezerra, do bairro Altos da Serra, um dos mais carentes e violentos da Capital, a professora de língua portuguesa da 3ª série pediu aos alunos que desenhassem como é o bairro onde moram e como gostariam que fosse, caso entendessem que havia algo de ruim. O pequeno Miguel, de 9 anos, reproduziu a cena de um homem atirando em uma mulher na frente de uma criança, que chora na porta de uma casa. Nessa cena, o céu está nublado e uma chuva forte começa a cair. Já na cena do bairro em que Miguel gostaria de morar, há prédios bonitos, o sol brilha forte, o céu está límpido, enquanto crianças brincam numa praça. Eveny, também de 9 anos, desenhou dois homens, um matando o outro à beira de uma avenida. Numa imagem extremamente realista, a estudante pinta de vermelho o que seria o sangue jorrando da vítima. Na mesma folha, às margens de uma via similar a que serviu de cenário ao crime, ela “edificou” casas bonitas e árvores. Na conclusão do desenho, a pequena escolar escreveu: “no meu bairro morrem muitas pessoas por causa de tiroteios”. Dayanne foi além, entre um desenho e outro reclamou: “meu bairro é perigoso, eu não queria que fosse assim, mas não posso escolher”. Nas ilustrações dela, enquanto carros passam apressadamente, um homem atira em uma criança. O homem grande e forte aponta o revólver na direção de uma garotinha indefesa, minúscula, se comparada ao vigor físico do agressor. No bairro ideal, Dayanne vê arco íris, árvore frondosa, flores, borboleta, ônibus, carros de passeio, frutas e animais. Criações de outros estudantes reproduzem cenas de tiroteio entre policiais e bandidos, assassinatos, assaltos. Na Escola Municipal Augusto Mário Vieira, do bairro Bela Vista, o pequeno Mateus, de 6 anos, da sala de educação infantil, expôs no papel a experiência de um sonho no qual o bandido atirava no super herói. Nessa história, o bandido era forte, muitas vezes maior que o “mocinho”. Na sala de Mateus, apesar da pouca idade das crianças, praticamente todas tem um testemunho de violência. Carlos, também de 6 anos, viu dois homens brigando e, em seguida, um atirando na cabeça do outro, já Gabriel, de 6 anos, contou que a festa do bairro dele, onde foi com a irmã, acabou em uma briga generalizada. IDENTIDADE - Professora há 14 anos, Mônica Cristina da Silva, que hoje atua na Escola Mário Augusto Vieira em sala da pré-escola, disse que dois alunos, ambos de 5 anos, chamaram sua atenção ano passado. Ao trabalhar o tema “identidade”, alfabetizando criança a partir do nome dela e de membros da família, ao serem indagados sobre o que queriam ser, os dois responderam que seriam bandidos. Um dos alunos detalhou a razão da escolha explicando que na rua onde morava havia um traficante que tinha casa bonita, motos e carros. E ainda, que todo mundo tinha medo dele e alguns, por ordem do traficante, passavam longe da rua do bandido. “Só passa perto da casa dele quem ele gosta”, completou o menino à professora. Mais tarde, Mônica descobriu que a mãe do menino, com quem ele morava, era viciada em drogas e muito agressiva. Este ano, o menino foi morar com a avó e mudou de escola. De acordo com a diretora Lídia Santana, a violência ainda é um grande problema dessa escola, mas a situação já esteve bem mais grave. Anos atrás, por conta de um bando de traficantes que morava vizinho, a escola era invadida por bandidos em fuga e até baleados.

Edição EDIÇÃO 16961




ENQUETE
Você acredita que a Ferrovia Vicente Vuolo vai chegar a Cuiabá?
Sim. Seria uma questão de tempo. E de interesse.
Não. A Rumo já sinalizou que não é uma prioridade
Tanto faz. Em MT, os políticos não ligam para a obra
PARCIAL