CIDADES
Terça-feira, 02 de Junho de 2015, 21h:16
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LUTO
Agora, sem o Sinjão
Morre em Cuiabá o ex-prefeito de Dourados e fundador das cidades de Rio Branco, Salto do Céu e Lambari DOeste
Eduardo Gomes
Da Reportagem
Cuiabá se despede de um homem público que deixa um legado de trabalho, luta e dedicação ao Mato Grosso anterior à divisão territorial para a criação de Mato Grosso do Sul em 11 de outubro de 1977. Vítima de complicações pulmonares morreu ontem, às 10h10, aos 99 anos, no Hospital São Mateus, nesta capital, João Augusto Capilé Júnior, ou simplesmente Sinjão, como se tornou conhecido. Sinjão estava internado desde 27 de maio. Seu velório começou às 16 horas do dia do seu falecimento e prossegue até às 10 horas desta quarta-feira, quando seu corpo será sepultado no jazigo familiar no Cemitério Parque Bom Jesus de Cuiabá, ao lado de dona Roma, que foi sua mulher. Nascido em Rio Brilhante, Mato Grosso do Sul, quando aquele município pertencia a Mato Grosso, Sinjão passou a infância e juventude em Dourados. Sua filha Vera Capilé revela que o pai tinha fortes laços de amizade na fronteira com o Paraguai, principalmente na cidade de Ponta Porã, separada do país vizinho pela Avenida Internacional (do outro lado é Pedro Juan Caballero). Vera acrescenta que ele também manteve bom relacionamento com índios aldeados na região de Dourados. De Dourados Sinjão mudou-se para Cuiabá em 1961 e deixa 56 descendentes, dos quais, oito são seus filhos. Dona Íris Capilé, fundadora e diretora deste Diário é uma de suas filhas. Sinjão foi prefeito de Dourados (agora Mato Grosso do Sul) no período de 1945 a 1947. Na prefeitura criou a Colônia Municipal, que foi o primeiro projeto de reforma agrária executado no Brasil por um município; essa colônia deu origem ao município de Itaporã. Em Dourados Sinjão foi um dos fundadores do Jornal O Progresso e seu redator-chefe; o presidente daquele períodico era Weimar Torres e o compositor de artes gráficas Nauristides Brandão; Sinjão usava o pseudônimo de Jota Júnior e assinava a coluna Aquarela da Vida. Nos meios políticos, inicialmente Sinjão militou do PSP do líder paulista Adhemar de Barros. Em 1958 assinou ficha de filiação na UDN e nas asas daquele partido mudou-se para Cuiabá, com a missão de presidir a Comissão de Planejamento da Produção (CPP), que era o braço administrativo do governo mato-grossense. A CPP seria transformada na Companhia de Desenvolvimento do Estado de Mato Grosso (Codemat), estatal extinta numa reforma administrativa nos anos 1990. À frente da CPP Sinjão teve papel de destaque na instalação da primeira usina de açúcar em escala industrial em Mato Grosso, a Usina Jaciara, na cidade do mesmo nome, na região de Rondonópolis. Sinjão presidiu a Companhia Telefônica e Cuiabá e no exercício do cargo integrou a cidade ao sistema de Discagem Direta à Distância (DDD), conquista tão importante no setor das comunicações quanto a ligação da capital mato-grossense às linhas telegráficas que no início do século passado levaram as impressões digitais do marechal Cândido Mariano da Silva Rondon. Calmo e discreto, nos últimos anos Sinjão lia, tocava violão, cantava e dedicava-se exclusivamente à família, principalmente aos netos, bisnetos e trinetos. Mesmo recluso ao ambiente familiar em sua chácara em Cuiabá, Sinjão sempre tinha tempo e disposição para receber amigos e admiradores. Seu ciclo de amizade incluía homens e mulheres de várias faixas etárias. Sua lucidez somada à fertilidade de sua memória e seu conhecimento sobre os mais diversos assuntos prendiam a atenção de quem o ouvia. Para Vera, a vida de seu pai sempre foi pautada na honradez tanto na iniciativa privada quanto no exercício de funções públicas. Ele (Sinjão) foi um grande homem, um batalhador, que prestou serviços a vários governos, sempre de cabeça erguida, por sua honestidade; semeou progresso e alegria em Mato Grosso. A filha diz que se sente orgulhosa pela trajetória do pai. Seu coração era forte, muito forte e se ele não tivesse 99 anos nós doaríamos seu coração para transplante, resume.