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CIDADES
Quinta-feira, 18 de Junho de 2009, 21h:08

BORDOLÂNDIA

Acaba bloqueio na BR

Após dez dias de interrupção, cujo saldo foram 2 mortos e 2 feridos, trabalhadores decidem pressionar Incra em Cuiabá

RENÊ DIÓZ
Da Reportagem
Após 10 dias de bloqueio e conflitos com caminhoneiros que provocaram duas mortes, trabalhadores sem-terra liberaram ontem o trânsito na BR-158, no trecho entre os municípios de Bom Jesus do Araguaia e Serra Nova Dourada (nordeste do Estado). Os trabalhadores protestavam por terem sido despejados da fazenda Bordolândia em março, acusados de danos ambientais, mesmo após terem sido assentados na área. O desvio foi abandonado para que sejam iniciadas negociações com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em Cuiabá. O desbloqueio é fruto de acerto entre os sem-terra, ligados à Federação dos Trabalhadores da Agricultura (Fetagri), com agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e do Incra, que estiveram no local nesta quarta-feira, quando o clima na área do protesto ficou insustentável e foi necessária uma intervenção. As filas de veículos, principalmente caminhões, chegaram a cerca de quatro quilômetros de um dos lados da pista. Ainda no final da manhã de quarta-feira, uma confusão no bloqueio resultou em tiros que mataram dois líderes dos trabalhadores sem-terra e feriram dois caminhoneiros. A princípio, devido ao clima tenso com caminhoneiros, a suspeita entre os trabalhadores era de que os autores dos disparos eram alguns dos motoristas indignados. Entretanto, segundo a líder Dalma Cardoso dos Santos, observações de testemunhas do local apontam que os atiradores eram dois homens a bordo de um carro preto. Eles teriam chegado ao bloqueio e perguntado sobre o líder dos manifestantes. Dalma relata que é de praxe os trabalhadores responderem que não possuem líderes e que são um movimento coletivo – organizado por 53 coordenadores. Sem resposta, a dupla no carro abriu fogo e matou dois dos líderes, Edeoton Rodrigues do Nascimento, o “Melancia”, de 48 anos, e Abiner José da Costa, de 49 anos, parente do prefeito de Canabrava do Norte, Lorival Martins Araújo. Dalma também conta que, conforme as cápsulas das balas atiradas, foi concluído que as armas são pesadas demais para que sejam portadas por caminhoneiros em geral, mas por criminosos. De acordo com o delegado da Polícia Civil de Ribeirão Cascalheira, Rodrigo Santana, ainda não se sabe nada a respeito dos atiradores, mas depoimentos e algumas fotografias do local devem servir às investigações. Embora o desbloqueio tenha sido acertado pelo clima de tensão com os caminhoneiros, os sem-terra não aceitaram a proposta do ouvidor agrário regional de Mato Grosso, Salvador Soltério, e do chefe de gabinete da Superintendência Regional do Incra, Valdir Barranco. Eles pretendiam assentar pelo menos metade das 1.200 famílias numa outra fazenda, em Ribeirão Cascalheira. Os sem-terra, entretanto, afirmam que agora vão lutar pela volta do assentamento à fazenda Bordolândia, até mesmo em homenagem aos dois colegas mortos na quarta-feira. O apelo pela continuidade da luta por Bordolândia teria sido as últimas palavras de Abiner antes de morrer, enfatiza a líder Dalma. HISTÓRICO – O protesto dos sem-terra se deve ao despejo ocorrido em março, por força de ação movida pelo procurador Mário Lúcio Avelar, do Ministério Público Federal, acusando-os de grileiros profissionais e de terem danificado ambientalmente a área onde eles estavam se instalando como clientes da reforma agrária formalizada pelo Incra. Ontem, a Fetagri se reuniu em Várzea Grande e, por entender que Avelar está atuando mais por motivações políticas que por preocupações ambientais, decidiu solicitar sua retirada do caso da fazenda Bordolândia. Já o procurador acha que “têm mais é que me tirar mesmo desse caso e me deixar recebendo ‘bolsa-Bordolândia’ em casa”, mas não explicou exatamente o que queria dizer com a afirmação.

Edição EDIÇÃO 16961




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