CIDADES
Sábado, 11 de Julho de 2009, 12h:30
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FEUDOS
A muralha de Cuiabá
Indignados com insegurança e queda nos preços, moradores querem transformar Califórnia e Shangri-lá em condomínio
ALECY ALVES
Da Reportagem
Sob o argumento de que falta segurança, moradores estão se mobilizando para transformar dois bairros nobres de Cuiabá - o Jardim Califórnia e o Shangri-lá - em um condomínio fechado. A articulação segue o exemplo do Jardim Itália, um dos residenciais de classe alta, onde várias ruas foram privatizadas e seus acessos passaram a ser controlados por guaritas e seguranças particulares. O novo projeto envolve o fechamento de mais de 10 vias, já que esses dois bairros fazem ligação com o restante da cidade por meio de 15 ou mais ruas e avenidas, algumas delas de grande importância para o trânsito da Capital, como a Carmindo de Campo, Beira-Rio e Fernando Corrêa da Costa. A idéia defendida formalmente por um grupo de moradores, entre eles o ex-deputado estadual e presidente do Fundo Emergencial da Febre Aftosa, Zeca DÁvila, e o secretário de Controle Interno da prefeitura de Várzea Grande, José Bolanger de Almeida, restringe a quatro ruas a ligação terrestre do Califórnia e Shangri-lá com o mundo externo. Nestes pontos, haveria guaritas e guardas. Os dois bairros são anexos e juntos somam cerca de 800 casas, 2,5 mil moradores e outras 3 mil pessoas em circulação diária, considerando os empregados domésticos como cozinheiras, babás, jardineiros e vigilantes. Além de ter entre seus habitantes empresários, agricultores, pecuaristas, arquitetos, médicos e advogados, em ambos os bairros moram militares de alta patente e políticos de influência no Estado. No Califórnia, por exemplo, fica a casa da família da senadora petista Serys Slhessarenko. Já o Shangri-lá foi o bairro escolhido como morada há anos pelo vereador Lutero Ponce de Arruda. Zeca DÁvila, que mora no Shangri-lá há 15 anos e esta semana assumiu a vice-presidência da Associação de Moradores, sustenta que defende a criação do condomínio como forma de melhorar a segurança. Essa não é uma vontade exclusivamente minha, observa. Ele conta que há pouco tempo a casa da família foi invadida por assaltantes. Por volta das 6h os bandidos nos renderam. Fomos trancados em um quarto com armas apontadas para nossas cabeças. No momento do roubo, Zeca estava na companhia da mulher e netos. Ele diz que sabe que a restrição de acesso não impedirá a ocorrência de roubos, mas reduzirá a incidência e elevará a sensação de segurança. José Bolanger, morador do Shangri-lá há 29 anos, é um dos principais articuladores da privatização dos espaços dos dois bairros. Ele diz que a comunidade de classe alta não pretende executar a proposta por imposição, mas levá-la ao debate na Câmara e órgãos da prefeitura. Esta semana, Bolanger, Zeca DÁvila e dezenas de outros moradores se reuniram para reativar a associação de moradores. O plano condominial monopolizou as primeiras discussões após a posse da nova diretoria. Bolanger reclama que a violência fez cair o status de nobreza desses bairros, refletindo diretamente na desvalorização dos imóveis. De acordo com ele, atualmente não se vende uma casa de 300 metros, tamanho comum nos dois bairros, por R$ 300 mil, enquanto o mínimo seria R$ 450 mil, considerando a conta média de R$ 1,5 mil por metro quadrado construído. Como exemplo da violência que vem tirando o sono dos moradores, Bolanger citou dois vizinhos: o arquiteto Julio Delamônica Freire e o empresário Armando Araújo, conhecido como Armando Caçamba, que já foram assaltados várias vezes.