CIDADES
Sábado, 30 de Agosto de 2008, 13h:47
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FAMÍLIA REAL
200 anos de notícia
Exposição em Cuiabá no próximo mês revela que carta sobre a vinda da Corte chegou a Cuiabá com atraso
Na Cuiabá colonial, há cerca de 200 anos, o povo era conclamado pela Câmara da cidade a festejar em ação de graças a Deus (...) por haver preservado das garras do maior tirano do mundo a Corte do Nosso Amado Príncipe Regente. O ano era de 1808 e a notícia da segura chegada de dom João VI ao Brasil, em 22 de janeiro daquele ano, já estava atrasada em mais de nove meses. Napoleão, o grande tirano citado nas memórias, invadira Portugal e obrigava a Família Real portuguesa a uma fuga apressada e estratégica para sua colônia. A distante Cuiabá, então, poderia se sentir mais próxima de seu príncipe-regente. A programação de 200 Anos da Vinda da Família Real para o Brasil pode contar mais desta história. De 8 a 12 de setembro, no Arquivo Público do Estado, palestras de pesquisadores especializados, exposição de imagens e documentos da memória local vão desvendar o momento-marco do nascimento da nação brasileira, destacando o papel de Mato Grosso nesta formação, desde as primeiras mudanças causadas pela vinda de dom João. Mas o príncipe nunca pisou em solo mato-grossense. Apesar da importância estratégica na fronteira brasileira, essas terras só chegaram a receber um mandatário brasileiro na vinda do presidente Getúlio Vargas, com enorme festa. Isolamento, porém, nunca existiu para o historiador do Arquivo Público, Lauro Portela. Comemorava-se de tudo na monarquia. Não éramos isolados, embora isolados, tenta explicar. A distância em relação ao eixo do Rio de Janeiro e São Paulo nunca excluiu do cenário nacional a Capitania-Geral de Mato Grosso, que também comemorou quando outra notícia atrasada chegou à região. Desta vez, anunciando a Independência. O professor Otávio Ribeiro Chaves, um dos palestrantes da programação, destaca que Mato Grosso exerceu papel de importância e de sustentabilidade, a partir de 1808, na política territorial. Apesar de longínquo para o centro, lugar dos mais mencionados acontecimentos políticos e culturais à época, pode-se dizer que a consciência nacional começou a ser moldada também em Mato Grosso, no século XIX. A adesão ao Império em 1822 foi imediata. Durante a Guerra do Paraguai, por exemplo, o nacionalismo esteve explícito. Como diz Portela, nos vemos como Brasil desde que aderimos ao Império. Deficitário e escravagista, Mato Grosso prontamente aderiu ao Império, mas também dependia enormemente dele e sua integração foi demorada. Mas eis um vínculo econômico, o primeiro a ser mencionado por Otávio Ribeiro Chaves entre os simbólicos, os políticos, os culturais e, por excelência, os vínculos do idioma, que formam identidades e sugestionam o sentimento de uma nação. A política inicial de João VI no Brasil impulsionou o alastramento da idéia de nação brasileira, mesmo nos confins do longínquo Centro-Oeste. A transferência da metrópole, a abertura dos portos e a criação de bancos estatais são alguns dos exemplos de como a política da Família Real marcou a formação das identidades brasileiras, após se estabelecer aqui. A estrutura proporcionada ao território possibilitava o funcionamento e influenciava a sociedade da nova metrópole. Daí para o processo de Independência pouco faltava. Os próximos acontecimentos reforçariam os primeiros traços de nação, de que Mato Grosso compartilharia. O Brasil não seria mais, como diz Portela, um emaranhado de capitanias-gerais. CORRESPONDÊNCIA - Segundo o professor Otávio Ribeiro Chaves, uma correspondência a Cuiabá poderia demorar até cerca de nove meses para chegar. Vinda de Belém, com cinco ou sete meses, uma carta poderia chegar a Cuiabá. Do Rio de Janeiro, era razoável que a correspondência chegasse em quatro meses. Um caso de pontualidade para a época, por exemplo, mostra uma carta emitida pelo governador de São Paulo, em julho de 1726. Após passar por obstáculos, como índios, cachoeiras, corredeiras e sem paradas, a carta chegou a Mato Grosso em novembro do mesmo ano.