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CIDADES
Quinta-feira, 05 de Março de 2009, 20h:29

GUERREIROS DA CANETA

20 índios chegam à UFMT

Aprovados para cursos como Nutrição e Direito sonham com futuro melhor e encaram desafios na cidade grande

KEITY ROMA
Da Reportagem
Conhecidos como “guerreiros da caneta”, novos 20 estudantes indígenas iniciam este ano cursos superiores na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) no primeiro e segundo semestre. Nove dos universitários freqüentarão as aulas no campus de Cuiabá. Para os jovens, viver na cidade é apenas um desafio diante da possibilidade de conquistar uma vida melhor para si e para seu povo, de diversas etnias. Seis índios já chegaram à Capital esta semana para cursar Direito e Nutrição. “Estou tentando me adaptar. Além do calor muito forte na cidade, também não acostumei com o barulho”, conta Zonoyzo Kayrocê, de 22 anos, que agora é chamada de Idaleuza Kalomezore. Ela deixou a aldeia Umutina, no município de Barra do Bugres, na segunda-feira e seguiu para Cuiabá, onde esta semana começou o curso de Nutrição. Idaleuza é a única entre oito irmãos que terá formação superior. Os cinco irmãos homens e o marido são pescadores e sobrevivem da atividade ilegal de pesca na aldeia. “O estudo para mim será uma grande oportunidade. Na nossa região não há emprego para todos. Os índios sabem que a pesca ilegal nos prejudicará no futuro, mas não há outra fonte de renda que torne possível uma mudança de vida. Lá não há oportunidades”, relata. O marido de Idaleuza e o filho de 2 anos de idade vieram com ela para a Capital. “Eles ficarão até que eu me acostume um pouco mais, mas está difícil”, desabafa a jovem índia. Na sala de aula ela permanece calada e se surpreende com a agitação das colegas. “Aqui as meninas falam bastante. Na aldeia, as mulheres são mais calmas”, diz. Idaleuza conta que sempre estudou com o apoio dos pais. A aprovação no vestibular foi uma vitória perante os sacrifícios que ela enfrentou para estudar. “A 5ª e a 6ª série fiz na cidade. Lembro até hoje de ter que enfrentar enchentes e pegar botes à noite depois da aula”, relembra. Para sobreviver na Capital, Idaleuza receberá da Funai R$ 900 para todas as suas despesas na cidade. Outros cinco colegas estão aqui e três chegarão à Capital no segundo semestre. Todos têm o compromisso de prestar serviços à comunidade após a formação. Em todos os campi da UFMT no Estado concorreram 61 candidatos e foram aprovados 20 deles no vestibular indígena de 2009, distribuídos nos cursos de Direito, Enfermagem, Farmácia, Nutrição, Agronomia e Engenharia Florestal. O vestibular especial é um acordo entre a Funai e a UFMT em vigor desde 2008. Há um cronograma para que, até 2012, 100 índios ingressem na instituição, com abertura de 70 novas vagas. Cursar o nível superior é para eles uma mistura de sonho e sacrifício. “Dá muita saudade, mas quando me formar vou ajudar meu povo, que já foi muito sacrificado. Mês passado a Polícia Federal entrou na nossa aldeia e não havia sequer um advogado para ajudá-los”, critica a índia Edilaine Corevomaé, também umutina, 22 anos, caloura de Direito. A operação policial foi deflagrada contra a pesca ilegal na reserva.

Edição EDIÇÃO 16964




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