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BRASIL
Sexta-feira, 06 de Março de 2009, 19h:52

MENINA ESTUPRADA

Presidente Lula critica posição da Igreja

O arcebispo de Recife e Olinda rebate Lula e sugere que antes de se pronunciar sobre tema teológico ele consulte um teólogo católico da sua confiança

ALEXANDRE RODRIGUES e ANGELA LACERDA
Da Agência Estado – Vitória
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou ontem a posição da Igreja Católica sobre o aborto pelo qual passou uma menina de 9 anos que corria risco de vida por estar grávida de gêmeos. Para o presidente, preservar a vida da menina era o mais importante de tudo. "Como cristão e como católico, lamento profundamente que um bispo da Igreja Católica tenha um comportamento conservador como esse. Não é possível permitir que uma menina estuprada pelo padrasto tenha esse filho, até porque ela corria risco de vida. Acho que, neste aspecto, a medicina está mais correta do que a Igreja", disse o presidente, em entrevista coletiva após o lançamento do Território de Paz no bairro São Pedro, na periferia de Vitória. A criança sofreu abuso sexual por parte do padrasto por três anos, em Pernambuco. Grávida de gêmeos, ela corria risco de morrer. O aborto, garantido pela lei em caso de estupro, foi condenado pelo arcebispo de Recife e Olinda, Dom José Cardoso Sobrinho. Ele excomungou os médicos que realizaram o aborto e a mãe da criança, por ter autorizado. O presidente citou o caso da menina pernambucana durante o seu discurso no evento como um sinal da "degradação da estrutura da sociedade". Ele se referia ao papel da família na prevenção da violência. Indagado por jornalistas na saída se a Igreja Católica estava errada, repetiu: "Eu estou dizendo que a medicina está mais correta que a Igreja e fez o que tinha que ser feito: salvar a vida de uma menina de 9 anos". Lula ainda se mostrou preocupado com o trauma psicológico da vítima e defendeu a necessidade de um acompanhamento especial para que ela supere o trauma do abuso sexual. "Possivelmente levará décadas para que essa menina volte à normalidade (psicológica)", afirmou. ARCEBISPO O arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, respondeu ontem as críticas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de que a decisão médica é mais importante do que a opinião da Igreja Católica no caso da menina de nove anos que teve de fazer um aborto de gêmeos por correr risco de vida. "Sugiro ao presidente que antes de se pronunciar sobre tema teológico consulte um teólogo católico da sua confiança", rebateu dom José. Dom José criou uma grande polêmica anteontem ao declarar que a mãe da menina e a equipe médica responsável pelo aborto estavam excomungados da Igreja de forma automática. Ontem, dom José se disse satisfeito com a repercussão do caso pois o recado, de que o aborto é pecado e fere a lei de Deus, foi dado. "A penalidade automática do Direito Canônico é um remédio espiritual para quem está no caminho errado voltar à consciência", afirmou ele. "Achei correto ensinar ou reavivar a memória das pessoas para que elas parem com os abortos", observou, ao reiterar o que ele chama de "holocausto silencioso", diante da estimativa de que 50 milhões de abortos são realizados por ano no mundo, um milhão somente no Brasil. Sem querer nominar a mãe da criança ou os membros da equipe médica que efetivaram o aborto legal, ele afirmou que quem não sabia desta lei canônica não está excomungado. A partir de agora, no entanto, está ciente. "Se voltar a fazer estará excomungado automaticamente sem que ninguém precise dizer é a Lei de Deus." Lembrou ainda que o excomungado pode receber o perdão pela confissão, arrependimento e o propósito de não mais incorrer no erro. "A lei brasileira permite o aborto em caso de estupro, mas não é lícita, é contra a lei de Deus". ALTA A menina de nove anos recebeu alta ontem do Centro Integrado Amaury de Medeiros (Cisam), no Recife. Ela foi levada para um abrigo especializado, sob proteção do governo do Estado, ao lado da mãe e da irmã mais velha, de 13 anos, que tem deficiência física e, assim como ela, também foi vítima de abuso sexual do padrasto. Lá, a mãe e as filhas permanecerão por cerca de 15 dias recebendo atendimento médico, psicológico e social.

Edição EDIÇÃO 16967




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