BRASIL
Sábado, 07 de Fevereiro de 2009, 13h:40
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BIOPLASTIA
Estudo irá avaliar efeitos nocivos
FABIANA CIMIERI
Da Agência Estado Rio
O polimetilmetacrilato, substância utilizada em técnicas sem cortes de preenchimento estético popularmente conhecidas como bioplastias, pode ser absorvido pelas células e provocar inflamações ou mudar de lugar no organismo, gerando deformidade e até mutilação nos pacientes. A constatação é de um estudo feito pelo cirurgião plástico e membro da Academia Nacional de Medicina Claudio Cardoso de Castro. O resultado do trabalho do médico reacendeu a polêmica em torno do uso estético dessa substância injetável, originalmente empregada na fabricação de próteses ortopédicas e ortodônticas. Há alguns anos, o produto, chamado de PMMA, vem sendo adotado em técnicas de modelagem do corpo feitas em consultórios, clínicas de estética e até salões de beleza. Sua utilização é autorizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para corrigir problemas estéticos no nariz, queixo, orelhas, molares e contorno facial. A ideia da pesquisa surgiu por causa do número de pacientes que chegavam com complicações causadas pelo uso de PMMA ao Hospital Universitário Pedro Ernesto, onde Castro dá aula. Com uma bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (Faperj), o cirurgião reuniu 21 pacientes com imperfeições estéticas nas orelhas e que concordaram em ter a substância injetada nos lóbulos. "Essa característica facilitou a retirada do material para análise posterior." Seis meses depois, a substância foi retirada e levada para estudo histopatológico. A análise constatou que em todos os casos houve absorção de PMMA pelo organismo. Além disso, 20 tiveram infiltração e houve formação de nódulos em 19 deles. "A absorção pelos tecidos demonstra que o preenchimento não é permanente e que há migração", disse Castro. Para ele, o que acontece com PMMA é equivalente ao silicone líquido. "Os fabricantes dizem que as complicações são decorrentes da má colocação, mas o que a pesquisa constatou é que os problemas são da própria substância", afirmou. RECOMENDAÇÃO O presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, José Tarik, recomenda que a substância seja utilizada apenas para pequenos procedimentos de até 2 ou 3 mililitros em regiões da face. Em alguns casos, o PMMA é injetado em doses de até 400 mililitros, como nas nádegas. "É trabalho para médicos. Não deveria ser utilizado com fins estéticos. Deve ser feito com muita cautela e com um profissional reconhecido", alerta Tarik, acrescentando que existem algumas áreas do corpo onde há mais complicações, como perto do nariz e nos lábios. O médico e integrante da Câmara Técnica de Cirurgia Plástica do Conselho Federal de Medicina (CFM), Carlos Alberto Jaimovich, chama de "epidemia" o uso do polimetilmetacrilato (PMMA) em procedimentos estéticos. "O PMMA se tornou uma verdadeira epidemia que tem sido aplicada de maneira indiscriminada.". Segundo ele, "o resultado imediato, na maioria das vezes, é fascinante, mas em um porcentual pequeno o resultado inicial não tem solução". "O que estamos vendo agora é que ao longo do tempo observamos o endurecimento da região, migração e processo inflamatório cíclico incurável", diz o médico. O problema é que, após o uso, as moléculas de PMMA formam pequenas gotículas que são absorvidas pelo tecido. É o que garante o caráter permanente, embora estudos recentes mostrem que pode haver migração para outros locais do corpo. Para controlar os casos de inflamação, os pacientes são obrigados a tomar antibióticos e corticoides. Uma mulher de 45 anos, atendida no Hospital Universitário Pedro Ernesto, fez uma bioplastia com PMMA há um ano, injetando a substância nas maçãs do rosto para adquirir um "ar mais jovial". Um mês depois, teve uma infecção no local, que vai e volta, sem desaparecer por completo. O tratamento requer o uso contínuo de corticoide e massagens. Além disso, ela está com vermelhidão e uma secreção que escorre do olho esquerdo. "Pode ser que ela tenha que passar por uma cirurgia para tentar retirar o PMMA, mas é difícil porque ele adere nos tecidos", explicou o cirurgião plástico Claudio Cardoso de Castro, que acompanha pacientes com problemas após o uso do PMMA.