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ARTIGO
Sábado, 17 de Dezembro de 2011, 12h:43

GUSTAVO OLIVEIRA

Vontades derradeiras

Norte-americanos têm mania de lista. Esta semana o ‘The New York Times’ resolveu perguntar a algumas personalidades da Big Apple quais as 10 coisas que gostariam de fazer antes de morrer. Lembrei-me do filme ‘Antes de Partir’ (2007), quando os personagens de Jack Nicholson e Morgan Freeman, informados da proximidade da morte, partem para uma insólita viagem onde tentam realizar os últimos desejos. A lista é pra lá de incômoda, reconheçamos, mas suscitou respostas criativas e também reveladoras daquele temor secreto que todos temos, por mais que procuremos disfarçar. Entre as respostas, tinha a de um banqueiro de Wall Street que disse que lhe bastava ouvir em seu velório que tinha sido um homem honesto. Um gaiato de Forrest Hill, como último desejo de sua lista, disse que se contentaria de ouvir, também em seu velório, a seguinte frase: - Olhem, ele tá se mexendo! Já a minha lista das 10 derradeiras vontades começa com movimento: ainda vou correr uma corrida de rua. Isso mesmo, quero percorrer milhares de metros no mesmo trote que uso para correr no campo de minha casa, que é onde pratico minha atividade física. Também quero aprender a tocar um instrumento musical. Mal sei assobiar, mas espero que o exercício diário me garanta fôlego suficiente para realizar este segundo desejo. Escrever um livro, provavelmente uma grande reportagem, está nos meus planos desde que eu era criança. Antes - ou depois, não importa -, quero encontrar um tempo livre para contribuir na alfabetização de adultos que não tiveram a oportunidade de encontrar na infância o livro que ainda não escrevi. A propósito de escrever, lembrei-me agora de que também tenho uma pretensão artística: fazer uma letra de música. Já gastei metade da minha cota de desejos e ainda não relatei o principal. É evidente que não vou atravessar o rio Cuiabá sem antes dizer a todas as pessoas que amo o quanto as amo. Como é muita gente e eu sou tímido, vai levar um tempão. Vou deixar crescer os poucos cabelos que me restam. Mas a idade insiste em não permitir. Mais: não posso partir deste mundo sem antes ler todos os livros empilhados na minha mesa de cabeceira, que já formam verdadeiras torres inclinadas a me ameaçar o sono. Falando nisso, um nono desejo, se me permitem revelá-lo, é voltar a dormir o sono da inocência, que infelizmente perdemos quando deixamos de ser criança. Por fim, quero que meus verdadeiros amigos — que são poucos — digam enquanto posso ouvi-los: - Olhem, ele tá feliz! * Gustavo Oliveira é diretor de Redação do Diário e escreve hoje neste espaço. [email protected]

Edição EDIÇÃO 16962




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