ARTIGO
Segunda-feira, 27 de Maio de 2013, 19h:54
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AMADEU GARRIDO DE PAULA
Virada cultural
Os últimos acontecimentos em São Paulo justificam a conjetura: qual a finalidade da "virada cultural"? O que expressa esse termo? Ao que consta, trata-se da virada de um dia e noite, em que um povo se alegra com determinados eventos culturais, em especial a música. Entretanto, tanto as músicas como os fatos deploráveis denunciam a vida de um povo acometido de sérias patologias. A música, efetivamente, é a expressão do inconsciente coletivo e até mesmo da qualidade da governança e do estado social em determinado momento histórico. Ao concentrar-se, num único evento, várias manifestações musicais e culturais, obtém-se um retrato da sociedade em questão: sadia ou padecente de problemas profundos. Já se disse que cultura é o que resta na memória de cada um de nós do processo educativo. Se a educação do povo brasileiro pode ser adjetivada, no mínimo, de precária, o que pode resultar dela? Que cultura? E qual, portanto, o conteúdo desse evento, da "virada"? O fato irrefutável é que parte considerável dos atos artísticos executados corresponderam, precisamente, a essa precariedade de nosso estado cultural. A compreensão do que se diz não é fácil, mas se torna intuitivo à luz de algumas considerações. Hermann Hesse ("O jogo das contas de vidro") atribui importância capital à musicologia enquanto expressão do estado cultural de uma civilização. E se reporta à legendária China dos "velhos reis", em que as produções musicais tinham um papel fundamental na cultura das nações. A evolução musical se identificava com a evolução da moral, da cultura e até mesmo do reino. A decadência musical correspondia à decadência do governo e da nação. Vale a pena uma sua transcrição do livro "Primavera e Outono", de Lu Bu We: "As origens da música são muito remotas. Elas se originam da medida e têm suas raízes no grande Um. A grande unidade gerou os dois polos: os dois polos geraram a energia das trevas e da luz. Quando o mundo está em paz, quando todas as coisas estão em calma, obedecendo em suas transformações ao ser superior, então a música pode atingir a perfeição. Quando os desejos e paixões não se encaminham por falsas vias, então a música pode aperfeiçoar-se. A música perfeita tem suas causas. Ela se originou do equilíbrio. O equilíbrio se originou do direito, o direito se originou do sentido cósmico. Por isso só se pode falar de música com um homem que tenha reconhecido o sentido cósmico. A música baseia-se na harmonia entre o céu e a terra, na concordância do sombrio e do luminoso. As nações decadentes e os homens próximos do declínio também não se privam de música, mas sua música não é jovial. Por isso, quando mais ruidosa é a música, tanto mais relancólicos de transformam os homens, tanto mais decadente o país, tanto maior a queda do príncipe. Desse modo também a essência da música também se perde. (...) A causa da decadência do Estado Chou foi ter descoberto a música mágica. É bastante ruidosa essa música, mas na verdade afastou-se da essência da música. Pelo fato de ter-se afastado da própria essência da música é que essa música não é jovial. Se a música não é jovial, o povo murmura, e a vida perece. Tudo isso surge por se desconhecer a essência da música e ter em vista apenas sonoridades ruidosas". O que é válido para a musicalidade também se aplica à arte teatral, poética etc. Os fatos que tumultuaram a virada cultural e semearam a tristeza compelem nossos governantes a uma radical mudança de rumo. Atividades culturais devem ser distribuídas no espaço paulistano ao longo de todo o tempo, no centro, nas periferias e mesmo nos bairros melhor aquinhoados no meio urbano. Como complemento educacional, a música, o teatro, a poesia, sofrerão uma transformação em seu próprio conteúdo. Já cogitar-se de uma manifestação cultural única e concentrada - que rende dividendos eleitorais - só pode gerar o que vimos, a expressão melancólica de uma sociedade em crise, não obstante os valores artísticos - é de reconhecer-se - que emocionaram positivamente nossos conterrâneos da Pauliceia desvairada de hoje - mas que, expostos gratuitamente uma vez ao ano - são episódios que não representam o que há de profundo, inconformado e violento na consciência do povo, em especial de uma juventude que navega sem rumo num mar sem porto. E a "virada" só serve para expor a nudez civilizatória de nossos contemporâneos. * AMADEU GARRIDO DE PAULA é advogado