Atualmente estou em luta contra quatro piolhos agregados aqui das terras. Persigo-os, quero ver se os estalo nas unhas. Meu grande incêndio de matas desse ano a eles o devo. [
] Começo a acompanhar o piolho desde o estado de lêndea, no útero de uma cabocla suja por fora e inchada por superstições por dentro. Nasce por mãos de uma negra parteira, senhora de rezas mágicas de macumba. Cresce. [
] Constrói lá uma choça de palha igualzinha à paterna, produz uns piolhinhos muito iguais ao que ele foi. [
] Contar a obra de pilhagem e depredação do caboclo. A caça nativa que ele destrói, as velhas árvores que ele derruba, as extensões de matas lindas que ele reduz a carvão. O texto acima, intitulado Velha praga, compôs artigo publicado em novembro de 1914 na seção de queixas e reclamações de o Estado de São Paulo. O autor, Monteiro Lobato. Os piolhos: quatro trabalhadores da fazenda que acabara de herdar de seu pai, a Buquira, no Vale do Paraíba. Segundo se conta, o artigo provocou uma repercussão estrondosa. A elite paulista, bem como a brasileira (o texto fora republicado em cerca de 60 jornais em todo o país), se identificou com Lobato na sua condenação aos trabalhadores rurais pelo atraso do Brasil. Pela simples comparação dos trabalhadores a piolhos, parasitas, vê-se que para a elite paulista eles não eram sequer humanos. A fama de a velha praga levou Lobato a refletir mais sobre a sua relação com os peões da Buquira, e acabou escrevendo pouco depois outro artigo, intitulado Urupês, no qual o piolho evoluiu, ao menos se humanizou, e virou o Jeca Tatu. Lobato era bastante influenciado pelo modo de vida americano (american way of life) que começava a acontecer. Para ele, o Brasil deveria seguir os mesmos passos, inclusive passando a se chamar Estados Unidos do Brasil. A culpa pelo atraso não apenas econômico, mas também cultural do Brasil, na sua visão e na da elite nacional -, era do Jeca Tatu, o trabalhador caipira ou homem do campo, caracterizado por eles como preguiçoso, indolente. Quis o destino, no entanto, que Lobato abrisse sua visão de mundo, e transformasse o Jeca Tatu num personagem que viria a ser fundamental para a compreensão do Brasil desde aqueles tempos. Foi por meio dele que denunciou o abandono das populações rurais do Brasil, da ausência do Estado para contingentes enormes da população, até transformá-lo no Jeca Tatuzinho e depois no Jeca Brasil, personagem redimido e que redimia o seu criador. Há muito mais a se falar sobre o Jeca Tatu, Monteiro Lobato e a evolução do trabalhador rural brasileiro. O Jeca não existe mais. A mecanização das fazendas colocou em seu lugar, na maioria dos casos, trabalhadores altamente tecnificados. Aqueles fazendeiros também sumiram. Hoje são empresários rurais que dirigem seus negócios da Avenida Paulista. Mas, o surgimento do Jeca Tatu foi eternizado de várias maneiras. Uma delas por Mazaroppi, em seus filmes. E outra pela canção escrita pelo dentista, corretor de imóveis e escrivão ocasional Angelino de Oliveira, em 1918, e veio a estourar nas vozes de Tonico e Tinoco, em 1958. Pois Tristeza do Jeca acaba de vencer um concurso feito pela Folha de S. Paulo entre 16 especialistas em arte, música e cultura, como o maior clássico da música caipira brasileira. Nesses versos tão singelos, minha bela, meu amor/ Pra você quero contar o meu sofrer e a minha dor são de fato os versos mais singelos dos Estados Unidos do Brasil. * KLEBER LIMA é jornalista e consultor de marketing em Mato Grosso
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