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Cuiabá MT, Quarta-feira, 17 de Junho de 2026

ARTIGO
Sexta-feira, 26 de Setembro de 2014, 20h:26

TEOCLES MACIEL

Varanda Pantaneira

O dia acordava sonolento e silencioso do seio aconchegante da noite. A luminosidade ainda tênue lenta e docilmente beijava envolvendo aquela varanda da Sede da Fazenda Pantaneira. A lua a contemplar a madrugada despedia-se sorrateira e acanhada após reinar soberana. Os acordes da orquestração da natureza quebravam o silencio passando a delinear em sensíveis e vibráteis sons a sinfonia mágica e divina a anunciar festivamente o alvorecer. Ouve-se então o ranger dolente das redes estendidas entre tralhas de pesca, alforjes, guaiacas, arreios dependurados e a botina surrada e curtida pelos respingos dos aguaçais das vazantes sinuosas e brejais do pantanal. A seguir percebe-se a cantiga chorosa do ralar do guaraná acompanhado pelo rouco pigarro do forte palheiro e pelo cheiroso aroma do cafezinho vindo do fogão de lenha que a todos despertavam em bocejos de sonolência e paz. Quando então o galo no terreiro incorpora-se a aquela maviosa sinfonia do amanhecer com seu retumbante clarim fustigando a passarada no frondoso pomar a sair aos bandos irradiando musicalidade nos ares em alegre festim a enfeitar o Céu. As curralheiras de úberes cheias iniciam a chorar saudosas as suas crias no berrar intermitente entrecortado apenas pelo cantar das curicacas, e pela arrelia dos aranquãns no serrado distante, bem como pela ensurdecedora algazarra de milhares de periquitos a revoar as bocaiuveiras que alcatifam aquele universo alagadiço. Logo o pantaneiro busca o poço d’água em hora do asseio matinal iniciando no seu bendito labor diário beijando o pano amarelecido pelo tempo a cobrir o carcomido nicho dos santos que os protege. Enquanto isto entre cangas e canzis a voz entoada do carreiro chama pelo boi guia e o garanhão a galopar corta o vento a relinchar liberdade abafando o som do machado abraçado ao cerne seco do angico acelerando o amanhecer. Na mesa da varanda a moringa, o sapicuá e a lamparina dão lugar ao quebra-torto vindo de mãos sempre abençoadas que nutrem de boa seiva uma raça de tempera forte e destemida. No amanhecer o sereno faz brilhar o verdejante gramado de mimosal sem-fim a espraiar no barranco circundando o corixo de águas claras jacarés e capivaras, salpicadas de aguapés e enfeitada por colhereiros, tuiuiús, biguás, cabeça-seca, Martin pescador, marrequinhas e alvacentas garças. No Galpão ao longe, os peões feito tordinhos felizes amanhecem a ligar a sonata, e a escutar o som gostoso do rasqueado a infundir ainda de mais alegria e sonoridade aquele cenáculo de encantamento singular, ao mesmo tempo em que enriquece, de majestática sublimidade e sedução a Varanda Pantaneira. *TEOCLES MACIEL é ex-deputado estadual

Edição EDIÇÃO 16964




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