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ARTIGO
Terça-feira, 13 de Abril de 2010, 21h:18

ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ

Universidades e a propaganda enganosa

Poucos governos foram tão eficientes no uso da propaganda como tem sido o governo Lula/PT. Esse segmento da política brasileira – por tanto tempo considerado como sendo “de esquerda” – tem superado as piores práticas (que não são poucas e tampouco suaves) dos antigos partidos “de direita”. Mas por que inicio este artigo de forma tão incisiva contra o governo? Porque estou vendo na TV a veiculação de propagandas governistas. E olhem que não estou me referindo aos improvisos do Presidente; aliás, já multado pelo TSE por fazer propaganda eleitoral fora de hora e de lugar, em benefício de sua candidata. Pois bem. Dentre as propagandas (Petrobrás, BNDES...), há uma, sobre as universidades, que é enganosa. Antes de apontar as inverdades, descrevo o cenário escolhido: trata-se do belíssimo campus da Universidade Federal do Pará (onde, aliás, estive ontem na mesa de um debate sobre o ENEM; a UFPA ainda não aderiu a isso). No cenário da propaganda, vê-se o Rio Guamá, que banha extensa parte daquele campus; claro que de seu lado oposto, a UFPA é “banhada” por imensa favela que se encontra fincada em palafitas sobre um mangue. Ali, o esgoto corre a céu aberto, o que é grave problema de falta de saneamento básico. Mas, enfim, o que é apresentado naquela propaganda que visa ganhar votos de gente desavisada? Resposta: os supostos resultados positivos do REUNI (Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais). Antes de pontuar alguns detalhes do programa, vale dizer que o governo, por intermédio do MEC, impôs isso às universidades, ferindo outra vez a autonomia das mesmas. No discurso, a falsa democracia de sempre: “cada universidade é livre para aderir ou não o programa”. Todavia, caso houvesse quem não aderisse, as verbas não seriam repassadas. A adesão cega foi quase geral. Elementar! Verdade seja dita: depois disso, as universidades viraram canteiros de obras. Em todas, há construções por toda parte, mas de qualquer jeito, o que é preocupante. Em contrapartida, e aí residem os problemas, as universidades têm de antecipar resultados de metas impostas pelo MEC. Eis o lado cruel e eleitoreiro do programa. Assim, antes de tudo, as universidades já dobraram suas vagas; contudo, as contratações de docentes não acompanharam a demanda. Faltam muitos professores. Na falta de docentes, a UFMT, p. ex., aprovou em um Conselho Superior uma resolução, a de nº 197; número, aliás, que coincide com o número do artigo no Código Penal, destinado aos crimes contra a organização e liberdade do trabalho. Que coincidência! A tal resolução, dentre outras, retira 10 horas da pesquisa dos docentes; impondo-lhes mais tempo em sala de aula. É bom que saibam: arrancar horas da pesquisa significa extrair a alma da universidade pública, igualando-a ao formato do “aulismo” das instituições privadas, cujo nível é dos mais pobres, com raras exceções. Essa perda puxa outras: compromete as orientações, as publicações de artigos e livros, a participação em comissões, em seminários, em conselhos editoriais etc etc etc. Dessa forma, consegue-se dobrar a relação quantitativa aluno/professor. Hoje, as salas de aula dos primeiros anos de todos os cursos, principalmente, já se parecem com auditórios de cursinhos. Isso pode até render votos nas eleições, mas não antes sem agredir o nível da academia. Em médio prazo, o governo quer mais: que praticamente evitem-se as reprovações. O REUNI impõe aprovação automática de 90% dos ingressantes. Nas avaliações, meios facilitadores serão impostos para se atingir a meta. Lembrança: essa prática já ocorre nas séries cicladas do ensino básico. O resultado é trágico. Assim, as universidades federais desembestam para o mesmo buraco que já enfiaram os níveis básico, fundamental e médio de nossa educação formal. Um absurdo! Uma agressão! Pergunto: que futuro esperar de um país que está acabando com a qualidade das universidades em nome da quantidade. Definitivamente, o governo Lula/PT não tem esse direito. Nas universidades, o silêncio não pode continuar. É hora do berro. * ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ, Dr. em Jornalismo/USP. É Prof. de Literatura da UFMT [email protected]

Edição EDIÇÃO 16968




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