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ARTIGO
Terça-feira, 27 de Julho de 2010, 19h:30

ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ

Uma terra de contrastes

Logo após a Seleção Brasileira ter virado suco de laranja na Copa da África, a publicidade/propaganda – que apostara no hexa – mudou o eixo em direção ao futuro, traduzido pelo já insuportável ano de 2014. Em suma, um futuro movido por uma estúpida esperança que não deu intervalo algum às nossas mentes. A nova convocação de jogadores, anunciada há pouco, é a bola da hora que faltava para a completude do país mais ludibriado do planeta. Duvido que haja outro igual. Se houver... Dentre as peças, destaco uma vinheta da Rede Globo. A emissora, contrariando um clamor geral, designou a voz (ainda que em “off”) daquele senhor – a quem, durante jogos da Copa, lhe foi pedido que calasse a boca – para reafirmar que o Brasil é o “país do futebol”. Que infortúnio! Agora, sim, seria a hora de o povo reforçar o retumbante “cala boca...”. No entanto, quem tem a boca calada é o próprio povo que engolirá tudo e na exata dosagem que a mídia quiser até o fatídico 2014. Alguém duvida? Mas como nem só de futebol vive o homem, alguns dados da realidade também vieram a público, mesmo em meio ao clima de tanta ilusão produzida. Destaco dois deles, por andarem de mãos dadas: 1º) o Brasil é o sétimo país mais desigual do planeta. Das Américas, só não é mais desigual do que Bolívia e Haiti; 2º) o MEC divulgou novos dados sobre o ensino médio. Dos “melhores colégios”, só 8% são públicos. Atende-se: todos fazem “vestibulinho” para ocupação de vagas; quase todos são ligados a universidades federais. Os demais colégios públicos, mesmo quando lotados de alunos matriculados, são vazios de conteúdos. Só estão servindo para engrossar estatísticas de uma falsa inclusão e – em muitos casos denunciados pela própria mídia – de pontos de distribuição de drogas país a fora. A violência campeia por todo lado. Que futuro!!! Pior: nada disso é novidade àqueles que, em suas análises, não se cegam diante das evidências. Historicamente, o Brasil vem se formando sob a égide da desigualdade. Há algumas décadas, o estudioso francês Roger Bastide já dissera que o Brasil era a “Terra de Contrastes”. Só para ter uma idéia do significado disso, em cima das datas oficiais de nossa mal contada história, dos 510 anos de “descobrimento” (prefiro o termo “exploração”, por ser mais real), 322 anos foram de imposição colonial, embutido nesse longo período o cruel mercado humano de servidão de africanos. Vivemos apenas 188 anos de “independência” política. Na matemática do percurso histórico, temos, pois, um débito de 134 anos para apenas empatar o jogo cronológico. Nem quem escreve nem quem lê este artigo viverá o momento histórico do empate. Sinto muito! No entanto, para o bem ou para o mal da humanidade (?), enquanto estamos todos vivos, esses números não podem servir de conforto à atual elite de governantes. Ao contrário, posto que, “paradoxalmente”, o Brasil – com apoio das elites – é um país que já viu chegar à presidência um representante que serve de síntese da maioria: tem origem negra e pobre; foi migrante do Nordeste para o eixo econômico Sul/Sudeste; foi – ainda que por pouco tempo – um operário; forjou-se no meio sindical, sendo apoiado por intelectuais, artistas e clérigos da Teologia da Libertação: ala da Igreja Católica. Mais: a ditadura militar não o fez partir “num rabo de foguete”. Deixou-o “respirar”. Deixou-o “existir”. Se fosse ele um Chico Buarque, deveria sempre dizer um “Deus lhe pague”, mas irônica e sarcasticamente, como fizera aquele gênio. Porém, seu agradecimento tem sido servir ao capital, mas como ventrículo disfarçado de democrático; logo, serve aos capitalistas: banqueiros, industriais, senhores feudais da contemporaneidade (donos de agronegócios). Em contrapartida, aos seus semelhantes de antiga classe social só tem destinado migalhas permitidas pelas elites; ou seja, programas assistenciais (bolsas escola, família...) que não tocam no coração (estrutura) do sistema. A continuar assim, a educação continuará no limbo; logo, a desigualdade/contrastes também. Parafraseando o compositor/cantor Zé Ramalho, este “até pode ser o país do carnaval/telenovela/futebol, mas com certeza não é o meu país”. *ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - Dr. em Jornalismo/USP. Prof. de Literatura da UFMT [email protected]

Edição EDIÇÃO 16967




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