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ARTIGO
Sexta-feira, 27 de Março de 2009, 21h:04

RENÊ DIÓZ

Um verdadeiro rebanho

Nunca imaginaria que, após o concerto do Radiohead em São Paulo no último domingo, ficaria tocando na minha cabeça uma canção tão condizente com o clima das apresentações quanto “Admirável Gado Novo”. Não que desdenhe do trabalho do Zé, mas a vida de gado que se materializou na saída do show era triste demais pra aturar. E simbolizou o descaso dos organizadores. Para quem gastou uma nota para chegar a poucos metros do vocalista Thom Yorke e companhia, a organização do evento contrastou com a qualidade das performances. Há quem diga que show de rock costuma ser assim mesmo, mas não é para tanto que se paga R$ 100 ou R$ 200 (inteira). O custo foi grande. Primeiro, foram R$ 120 pelo ingresso de estudante pela internet (com frete para recebê-lo em casa); depois, mais R$ 20, também pela internet, para confeccionar na União Nacional dos Estudantes (UNE) uma carteirinha válida em todo o Brasil; por fim, menos R$ 500 no bolso para garantir passagens de ida e volta de São Paulo. Todo o investimento para dar com os pés na lama. Daí a vida de ruminante: ao chegar no local, a Chácara do Jóquei Clube, o espectador tinha uma breve idéia de como seria posteriormente desrespeitado em seus direitos de consumidor. O primeiro sinal do descaso era o chão do local, um vasto campo gramado tinindo pra virar barro assim que a garoa desse as caras. As nuvens, lá em cima, davam conta do que estava por vir. Cá embaixo, conforto mínimo. Antes das apresentações começarem, o público já percebia o abuso no qual se metera. Não havia local para se sentar em mais de 4 horas de evento. Já os banheiros químicos eram claramente insuficientes – quem foi deve se lembrar do providencial Muro das Lamentações, tapumes ao lado dos banheiros onde os cuecas incontinentes despejavam os dejetos à revelia dos seguranças. E isso porque ninguém teve dó do dinheiro. Pois, como diria um guru cuiabano, “estando no inferno, abrace o capeta”. Assim, todos se conformaram em gastar R$ 5 por copo de cerveja quente. E os esfomeados se deram mal. Igualmente caríssima, a pizza vendida lá consistia numa massa amorfa tão branca quanto o próprio Thom Yorke, britânico que é. Por falar nele, em relação às atrações da noite pouco há que se reclamar. Fora a cara-de-bunda dos Los Hermanos, numa apresentação mais fria que os robóticos Kraftwerk, o festival atendeu à expectativa de tantos fãs. O que essas 30 mil pessoas não esperavam era ter de se afunilar por uma única saída do local ao final das apresentações, fincando os pés em poças de lama. Um verdadeiro rebanho. RENÊ DIÓZ é estudante de jornalismo

Edição EDIÇÃO 16967




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