Alguns já estão dizendo que as sentenças do Supremo Tribunal Federal para os réus condenados pelo escândalo do Mensalão são um marco, um divisor de águas para a nauseabunda cultura brasileira da impunidade. Duvido disso. O julgamento em questão tem apelo midiático, encontrou um ministro-relator polêmico e disposto a comprar brigas como nenhum outro faria e uma dose extraordinária de opinião pública exigindo nada menos que a condenação. Daí a dizer que teremos uma forte jurisprudência, não creio. Entre outros motivos para minha descrença está o fato da Justiça não ter sequer cogitado a possibilidade de obrigar os condenados a devolver o dinheiro público roubado. Vão pra cadeia por alguns míseros anos, deverão pagar multas pífias (considerando as centenas de milhões de Reais envolvidos no esquema) e não foram obrigados a ressarcir o erário pelos monumentais desvios, agora estabelecidos como verdadeiros por conta das supracitadas condenações. A propósito, dadas as origens de suas rendas e trajetórias profissionais, os mensaleiros só conseguiram pagar os advogados mais caros país para lhes defender graças à roubalheira. José Dirceu, Delúbio Soares, José Genoíno, Marcos Valério e toda patota do Mensalão entram para a agremiação de larápios que a Justiça brasileira não consegue obrigar a devolver os recursos públicos roubados. Agora são diletos integrantes de uma lista composta por Lalaus, Pittas, Barbalhos, Vavás, Sarneys e o sempre sorridente Paulo Maluf, célebre figura do rol de procurados pela Interpol e que brinda os brasileiros com um mandato de deputado federal e uma fundamental parceria com a gangue do ex-presidente Lula da Silva. Mas, se não criam uma jurisprudência que possa ser tomada como sólida e eficaz, as condenações dos mensaleiros pelo STF enviam um recadinho emblemático aos corruptos do país: a corda dos políticos é mais forte! O publicitário Marcos Valério pegou mais de 40 anos de xilindró; seus sócios na SMP&B e DNA levaram quase 30 anos; a executiva de finanças Kátia Rabello amargou mais de 16 anos; e o núcleo político ficou na média de oito anos de prisão, alguns deles podendo cumprir a pena em regime semiaberto. Enquanto isso, o chefe da quadrilha foi condenado a míseros 10 aninhos e só deve ficar no xilindró por cerca de dois anos, talvez desfrutar por algum tempo da regalia de uma sala do Estado Maior (já que José Dirceu é advogado, como prevê Artigo 7º da Lei nº 8.906/1994, que institui o Estatuto da Ordem dos Advogados do Brasil), além de uma ilustrada militância fanática (e lunática!) a lhe defender. Em outras palavras: os políticos só não saíram ilesos desse processo por força das opiniões pública e publicada. Caso contrário, seguiriam livres para cumprir mandatos de deputado, senador, prefeito ou governador, além de postular postos de ministros de Estado e os mais altos cargos da República. Assistimos isso todos os dias em quase dois séculos. Nem a comemorada Lei da Ficha Limpa é plena, já que caça direitos políticos de bandidos por algum tempo e não para sempre. No fim, a politicagem consegue escapar às maiores penalidades. Então, fica a dica: quando um político ou uma agremiação partidária lhe propor uma negociata que envolva dinheiro público, recuse. Lembre-se que vale a máxima da corda que sempre arrebenta para o lado do mais fraco. E a politicada brasileira ainda é forte. Muito forte! Você duvida? Pergunte ao Marcos Valério e ele lhe dará lições de boa bisca: medo, terror e mais de 40 anos de cana por ter se metido com uma quadrilha do PT. E ainda pode cair sobre suas costas o famigerado Mensalão mineiro do tucanato. Pense: será que vale a pena? *HELDER CALDEIRA, escritor, jornalista a apresentador de TV www.ipolitica.com.br/
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