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Cuiabá MT, Quinta-feira, 11 de Junho de 2026

ARTIGO
Sábado, 27 de Junho de 2009, 13h:09

PAULO LEITE

Um pouco de tudo

Quinta-feira fui dormir triste. Uma sensação de angústia, de certa nostalgia tomou o meu coração de assalto. Uma inquietação que não sabia identificar. Estranhei aquele sentimento. Refleti um pouco... Logo me vieram à cabeça as imagens de um corpo inerte, enrolado em um lençol branco, sendo transladado por um helicóptero, pelos ares de Los Angeles. Lógico, minha consternação tinha a ver com a morte prematura do cantor Michael Jackson. Ele nunca foi símbolo eloqüente para mim, nem pela música que produziu, nem tampouco pelo seu comportamento excêntrico. Mas, não há como negar, foi o maior ícone da cultura pop mundial. Seu talento era inegável. A marca de sua criatividade estava impressa em todos os seus movimentos artísticos: fosse na música, na dança, na moda ou na direção de sofisticados clipes. Sua personalidade também era inconfundível. Deixou um legado de obras primas e de escândalos. Tudo em sua vida estava envolto em mistérios. Afinal, os ídolos são assim. Meio humano, meio ficção. Michael Jackson se movia como um espectro dançante; seu corpo franzino e andrógino pressupunha uma sutileza decadente. Uma leveza suspeita. Mas isso, o incompreensível, fazia dele um modelo invulgar de desapego à realidade. Alguns teólogos da música pop chegam a atribuir a ele a gradual quebra de preconceito contra os negros na sociedade americana. A música de Michael Jackson era mais forte que a segregação racial. E, no ritmo de sua voz, o caminho foi aberto para a diminuição das tensões sociais nos Estados Unidos. Jackson nunca foi político ou ativista, ao contrário, sempre demonstrou insatisfação com sua condição. Isso ficou muito evidente com as constantes transformações em seu corpo. Com o tempo, o rosto de Michael foi sendo plastificado e sua pele esbranquiçada. Ele era o retrato da mutação; da deformação estética e moral. Sua arte também empalideceu. E sua voz, pouco a pouco, foi se calando. Até o seu último suspiro, vítima de uma parada cardíaca. Agora, findo o homem, surge a lenda. O desaparecimento fez Michael Jackson renascer em todo o seu esplendor. As mazelas, os escândalos, a turbulência financeira, as denúncias de pedofilia, serão sepultadas junto com a matéria. Ficam as músicas, os clipes e a lembrança do artista genial. A morte é o tributo que os ídolos pagam pela eternidade. É o desfecho da carreira, é a despedida das fraquezas humanas e o encontro definitivo com a liberdade. Castelos ruíram, exércitos foram vencidos; só as lendas sobrevivem ao tempo. Somente a palavra ou o sibilar das notas musicais atravessam os ventos gélidos das épocas. Muitos ainda entoarão as canções de Michael Jackson e por muitos anos. Sua decadência e sua fragilidade serão esquecidas. Restará sua voz. Ficará sua música. Porque um artista que escreve um verso ou registra um acorde vale mais que o general que desfere mil tiros. Um trovador que derrama uma lágrima sabe mais que mil calculistas. Um jardineiro que planta uma flor oferece mais ao semelhante que mil mercadores. Michael Jackson foi um pouco de tudo isso. * PAULO LEITE é jornalista e escritor

Edição EDIÇÃO 16960




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